quarta-feira, 6 de março de 2013

Tradução e crítica: a natureza na poesia de Eugène Guillevic


EUGÈNE GUILLEVIC: UM POETA DA HUMILDADE
Marciano Lopes

para Maria Lídia L. Maretti
e Mayara Donadon, que colaborou na análise

Houve tempo em que os brasileiros bem-educados queriam ser franceses. Muito se fez de bom e ruim para se alcançar tal semelhança. Hoje os tempos são outros e a França esquecida (salvo quando se trata de Copa do Mundo de Futebol...) perdeu seu trono para a cultura inglesa e, especialmente, a norte-americana – o que torna difícil o acesso, nos dias atuais, à sua produção cultural, seja ela nas artes plásticas, na música ou na poesia. Por tal motivo, são merecedoras de aplauso e divulgação a Antologia da poesia francesa (do século IX ao século XX) organizada por Cláudio Veiga, que também realizou o árduo (mas delicioso) ofício de traduzir os poemas selecionados. [i] Ao lê-la, há alguns anos atrás, tive o prazer de ser apresentado à poesia de Eugène Guillevic (1907-1997), que é representada na obra por quatro textos sobre os quais vou discorrer com o intuito de compartilhar a descoberta com você, caro leitor.[ii] Para começar, vejamos o significativo meta-poema J’ai vu le manuisier (“Tenho visto o marceneiro”): [iii]

J’AI VU LE MANUISIER

J’ai vu le manuisier
Tirer parti du bois.

J’ai vu le manuisier
Comparer plusieurs planches.

J’ai vu le manuisier
Caresser la plus belle.

J’ai vu le manuisier
Approcher le rabot.

J’ai vu le manuisier
Donner la juste forme.

Tu chantais, le manuisier,
En assemblant l’armoire.

Je garde ton image
Avec l’odeur du bois.

Moi j’assemble des mots
Et c’est un peu pareil.

TENHO VISTO O MARCENEIRO

Tenho visto o marceneiro
Da madeira aproveitar-se.

Tenho visto o marceneiro
Comparar diversas pranchas.

Tenho visto o marceneiro
A mais bela acarinhar.

Tenho visto o marceneiro
Avançar a sua plaina.

Tenho visto o marceneiro
Conseguir a forma justa.

Tu cantavas, marceneiro,
Os armários encaixando.

Eu guardo com tua imagem
O perfume da madeira.

Eu, que as palavras combino,
Faço um pouco a mesma coisa.

(Tradução: Cláudio Veiga.)



         O poema acima é muito significativo, pois nos fala de aspectos marcantes da poética do seu autor. Nele, o eu-lírico, ao observar o trabalho do marceneiro, discorre, por comparação, sobre o seu trabalho de poeta. Ao fazê-lo, aponta para os valores da simplicidade, da humildade e do trabalho como aspectos positivos e orientadores do seu labor artístico.
A simplicidade apontada encontra-se, à primeira vista, na própria forma do poema. Este é composto de oito dísticos, ou seja, de oito estrofes de dois versos, sendo os mesmos invariavelmente hexassílabos (heptassílabos na tradução em português) – metro preferido do autor, conforme observa Catherine Réault-Crosnier.[iv] Não há rimas externas, mas apenas a repetição da palavra “marceneiro” devido ao paralelismo entre todas as estrofes – importante característica da lírica em geral e, mais atualmente, da poesia popular. O paralelismo ocorre porque o primeiro verso de cada dístico sempre é composto pela oração que dá título ao poema e o segundo por outra oração que apresenta alguma atividade executada pelo marceneiro. O léxico é simples, pois as palavras são comuns e de fácil entendimento; clareza que também é conferida pela sintaxe, bastante direta, sem inversões que dificultem a compreensão.
A simplicidade da forma faz eco à simplicidade do ofício, que é, geralmente, considerado humilde. Lembremos que, segundo o dicionário, a humildade é uma virtude que nos dá o sentimento da fraqueza, podendo estar associada à modéstia, à submissão e à pobreza. Lembremos também que, na nossa cultura ocidental e cristã, a marcenaria era o ofício de José, “pai” de Jesus. Sobre a religiosidade cristã de Guillevic, é significativo que o mesmo foi católico praticante até por volta dos trinta anos, quando teve sua crença abalada pelo desastre da revolução franquista, na Espanha – fato que muito provavelmente foi importante para a sua decisão de aderir ao Partido Comunista Francês em 1942, conforme informa Mario Laranjeira.[v]
A simplicidade, a humildade e o amor à natureza – afinal, a matéria-prima do marceneiro é a madeira, cujo perfume o poeta guarda na memória – também estão presentes em muitos outros poemas do autor, conforme pude perceber através da leitura do artigo de Catherine Réault-Crosnier (ver poemas selecionados ao fim deste texto). Na antologia organizada por Cláudio Veiga, os poemas Oui l’eau coule... (“Sim, a água corre”) e Non, tout le monde (“Não, nem todo mundo”) também apresentam estes motivos tanto na forma quanto na temática. Com relação ao primeiro aspecto, observe-se que eles são extremamente sintéticos, de vocabulário e sintaxe muito coloquiais. Quanto ao tema, novamente temos a presença da natureza nas suas formas mais simples e humildes: a água que corre, a rosa, a árvore que cresce... 

OUI, L’EAU COULE...

Oui, l’eau coule et l’arbre attend.

Elle coule au creux de la terre,
Elle coule dans la chair de l’arbre.

Et l’arbre attend.

SIM, A ÁGUA CORRE...

Sim, a água corre e a planta [espera.

Ela corre no côncavo da terra,
Corre no cerne da planta.

E a planta espera.

(Tradução de Cláudio Veiga.)
  
NON, TOUT LE MOND

Non, tout le monde
N’aime pas la rose.

Il y en a qui préfèrent
De bien autres choses,

Il y en a qui préfèrent
Ne pas aimer la rose.


NÃO, NEM TODO MUNDO

Não, nem todo mundo
Gosta da rosa.

Há alguns que preferem
Gostar de outra coisa,

Há alguns que preferem
Não gostar da rosa.

(Tradução: Cláudio Veiga.)

Ainda é muito importante – e talvez seja mesmo conclusivo – considerarmos a postura do eu-lírico em todos os três poemas. Neles, sua atitude é a de quem contempla, com a paciência da planta que espera, a natureza e medita sobre ela, buscando encontrar as verdades mais profundas nas coisas mais simples e puras. Atitude que expressa uma postura cristã, naquilo que o cristianismo tem de mais puro e original, mas que também pode se encontrar em outras religiões ou filosofias, como é o caso do zen-budismo. E se fizermos uma leitura alegórica dos poemas “Sim, a água corre” e “Não, nem todo mundo”, também é possível considerá-los como metapoéticos. Neste caso, podemos interpretar a figura da rosa como símbolo da poesia e a imagem da água a correr como simbolizando o fluxo da vida e dos pensamentos do poeta. Sob este ponto de vista, em que o eu-lírico se identifica com a árvore (l’arbre, traduzido por “planta”) que espera, temos a afirmação de uma poética cujo princípio criativo encontra-se inicialmente na inspiração, somente depois ocorrendo o trabalho de arte com o texto.
Por tais razões, a poética de Eugène Guillévic parece-me um pouco romântica – aspecto em que divirjo parcialmente de Catherine Réault-Crosnier – pois, embora desprovida de sentimentalismo, constitui a expressão de um espírito guiado pela humildade, que busca a paz e a sabedoria tanto nas humildes formas da natureza como no trabalho artesanal. E esta valorização do trabalho não alienado pela técnica e pela produção em série exigidas pela economia capitalista é, sem dúvida, um importante traço da visão de mundo romântica segundo o ponto de vista de Michel Löwy e Robert Sayre. Em suma, viva a poesia de Eugène Guillevic por ser profundamente natural e simples.
Para encerrar, seguem alguns outros poemas que também apresentam as mesmas características observadas acompanhados de traduções de meu punho. Retirei-os do já citado artigo de Catherine – a quem muito agradeço o contato crítico que me possibilitou com tão bela poesia.

LES TEMPS

Le temps qui peut changer
Le nuage en nuage
Et le roc en rocaille,

Qui fait aussi languir
Un oiseau dans les sables

Et réduit au silence
De l’eau pure tombée
Dans l’oubli des cravasses,

Le temps existe,
À mi-chemin.

O TEMPO

O tempo que cambia
A nuvem noutra nuvem
E o rochedo em cascalho,

Que faz também adormecer
Um pássaro nas duras pedras

E reduz ao silêncio
D’água pura caída
Em olvidadas fendas,

O tempo existe,
A meio-caminho.

(Tradução: Marciano Lopes)

 CARNAC*
(Excerto)

Mer au bord du néan,
Qui se mêle au néant,

Pour mieux savoir le ciel,
Les plages, les rocheurs,

Pour mieux les recevoir.

 CARNAC*
(Excerto)

Mar à beira do nada,
Que se mistura ao nada,

Pra mais saber o céu,
As praias, os rochedos,

Pra melhor recebê-los.

(Tradução: Marciano Lopes)


* Região em que nasceu Eugène Guillevic.



ROND

Qu’est-ce qu’il y a donc
De plus rond que la pomme ?

Si lorsque tu dis : ronde,
Vraiment c’est rond que tu veux dire,
Mais la boule à jouer
Et plus ronde que la pomme ;

Mais si, quand tu dis : rond,
C’est plein que tu veux dire,
Plein de rondeur
Et rond de plénitude,

Alors il n’y a rien
De plus rond que la pomme.

REDONDO

O que é que existe, portanto,
De mais redondo do que um pomo?

Se então, tu dizes: redondo,
Certamente é redondo o que tu                                        [dizes,
Mas a bola para jogar
É mais redonda do que o pomo;

E se dizes, então: redondo
É pleno o que queres dizer,
Pleno de redondeza
E redondo de plenitude,

No entanto, não existe nada
De mais redondo do que o pomo.

(Tradução: Marciano Lopes.)


NOTAS:
[i] VEIGA, Cláudio (organizador e tradutor). Antologia da poesia francesa (do século IX ao século XX). 2 ed. ampliada. Rio de Janeiro: Record; Salvador, BA: Secretaria da Cultura e do Turismo, 1999.
[ii] VEIGA, Cláudio. Opus cit, p. 400-407.
[iii] Há ainda outros poemas traduzidos de Eugène Guillevic na antologia bilíngüePoetas de França hoje, com seleção de textos, tradução e introdução feitas por Mário Laranjeira (Edusp/Fapesp, 1996).
[iv] Artigo intitulado “Eugène Guillevic (1907-1997), poète français contemporain” – acessado em 07/08/2006:  http://membres.lycos.fr/crcrosnier/articles/guillevic-poete.htm
[v] Apresentação de Eugène Guillevic, em Poetas de França hoje, pág. 111.

Observação: Texto publicado originalmente em 3 de setembro de 2006 na minha seção Balaio de Letras da saudosa Revista No Meio do Caminho, editada por Caetano Medeiro, Sansão e eu.

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