sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Ferreira Gullar homenageado em Portugal


Meu amigo Pedro Lopes Almeida sempre agitando nas terras além-mar. Segue abaixo e-mail de divulgação do evento Cidade Poética - que já deve estar acontecendo neste momento - em homenagem a Ferreira Gullar, um de meus poetas preferidos.

A 2ª sessão de poesia rumo ao projecto CIDADE POÉTICA será no próximo dia 29 - Sexta-feira -, pelas 18h30, na Galeria DIXIT, rua Miguel Bombarda, n.º 105 - Porto, com o título "Ferreira Gullar à lupa".

Este autor brasileiro, que já foi nomeado para o Prémio Nobel e recebeu recentemente a mais importante distinção dada a um escritor de língua portuguesa - o Prémio Camões -, esteve na origem do movimento Neo-Concreto da poesia brasileira, tendo-se depois dedicado a uma escrita mais interventiva socialmente, cujo exemplo maior é o seu célebre "Poema sujo".

Ferreira Gullar, "metade multidão metade solidão", é uma das vozes mais singulares da poesia contemporânea brasileira e será nesta sessão apresentado por Ana Catarina Marques, Maria Inês Castro, Pedro Lopes Almeida e Patrícia Lino (FLUP), com a projecção de um vídeo e exposição de retratos do poeta da autoria de Patrícia Lino.

Será servido um Porto de Honra no fim da sessão.

Entrada: 2 €.



POETRIA


Era pouco? era muito?
Era uma fome azul e navalha
uma vertigem de cabelos dentes
cheiros que traspassam o metal
e me impedem de viver ainda
Era pouco? Era louco,
um mergulho
no fundo de tua seda aberta em flor embaixo
onde eu
morria

("A Poesia", Dentro da noite veloz)

domingo, 24 de outubro de 2010

Viva Brasil!!! 7 de novembro na Chácara Aquarela



Apresentação do Corda Crua no Festival II Acorde Universitário
UEM 2009 - Canção: Saga e sina.


Disritmia Samba Clube interpretando O que é, o que é,
de Gonzaguinha e É hoje, de Didi e Mestrinho.

Estação Copacabana interpretando Você não entende nada,
de Caetano Veloso e Cotidiano, de Chico Buarque.


Apresentação do Dedo de Moça - composição: Vai.
Festival I Acorde Universitário - UEM - 2008.


Paulinho Schoffen (Cottonet Clube) e Luciano Blues
Composição: O último dia - de Paulinho Moska e Billy Brandão
Teatro Universitário da UEM.


VIVA BRASIL

A Festa da Celebração da Musica Brasileira!

Nossa música, nossa arte!!

Data: 07 de Novembro de 2010

Início: 15:30h

Local: Chácara Aquarela

Espaço de encontro do que há de melhor no Brasil: seus ritmos, a diversidade musical e a capacidade do brasileiro em incluir e transformar o diferente.

Nesta primeira edição, as bandas da cena de música brasileira em Maringá se reúnem em um formato especial e inédito! Dedo de Moça (samba de raiz) com Corda Crua (forró), Estação Copacabana (samba) com Cottonet-Clube (música brasileira) e Disritmia Samba Clube (samba rock) com Novo Trio (música brasileira).

Exaltando a nossa música e nossa arte! Cada artista com seu estilo contribui para esta grande Festa da Música Brasileira! Viva a nossa música! Viva a nossa arte! Viva Brasil!

Atrações:

Dedo De Moça
Corda Crua
Estação Copacabana
Cottonet-clube
Disritmia Samba Clube
Novo Trio
Dj Don Nattus

Ponto de vendas:

GENKO MIX MARINGÁ PARK

BADULAQUE ESTUDIO BAR

44-9998-7066-Bruno
44-8801-7945-Fábio
44-8836-2240-Pedro
44 -9945-8746- Amanda
44-9826-0505-Juliana
44-8437-3234 Victor
44-8827-7800- Si Gomes
44-8819-6794-Rayana
44-9936-7727-Liah
44-99932024-Mari
44-88455742-Guapo

sábado, 23 de outubro de 2010

Momentos "No Meio do Caminho": Happy Hour 2003


Da esquerda para a direita: Ivan Téo, Sansão,
Giu Maranho e donLeal.

Nívea Martins e Simone Tom

donLeal e Ivan Téo (no violão)

Da esquerda para a direita: Ivan Téo, Sansão,
Giu Maranho e donLeal.

Cartaz do Happy Hour


Nas fotos acima, Sílvia Sato e Oberdan Leonel sendo premiados com livros sorteados no I Happy Hour No Meio do Caminho - realizado na Aduem (Associação dos Docentes da Universidadade Estadual de Maringá) em 8 de novembro de 2003.
Ao meu lado, Caetano Medeiros, idealizador e webdesigner do nosso desativado site Revista No Meio do Caminho.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

DICAS PARA UMA ÓTIMA CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS



Karla Morelli*


Para se fazer uma ótima contação de histórias é necessário que haja muita criatividade e que não se tenha a maldita da pressa, esta que é a principal, senão for a única, suspeita por acabar e ser inimiga da perfeitissíma perfeição. Aliás, quem tem pressa come cru.
Para que aconteça uma ótima contação, tem que se escolher um bom livro, que desperte o interesse de quem vai contar e de quem vai ouvir a história. E se, no meio da contação, você se perder, não se preocupe, caro leitor, é pra isso mesmo que existe o improviso, nem todos tem a habilidade de usá-lo, mas ele é um pobre coitado, pois muitas vezes, quando entra na história, o ouvinte nem o percebe. O improviso, quando é muito bem utilizado é um dos principais recursos, se não for o principal, para a conclusão e a finalização da bendita contação de histórias. O ideal é que ele não transpareça na sua apresentação, pois se resolver transparecer, já não é mais considerado como um improviso, mas como uma péssima atuação do contador.
Sabe, meu caro leitor, fazer uma ótima contação de histórias não é fácil não, dá muito trabalho, pois o método para contar histórias exige tempo e já se inicia no momento em que você escolhe um livro para apresentar; mas, afinal, o que realmente deve-se escolher? Pois as escolhas são extremamente difíceis, decisivas e pessoais; o que eu gosto, não é necessariamente o que você pode e deve gostar e isso muitas vezes gera o conflito.
Desculpe-me a dispersão, caro leitor, voltemos ao método para uma ótima contação. Após a escolha de um livro, o próximo passo é que a história dever ser obrigatoriamente adaptada, pois imagine se você fizer uma contação e ficar preso nas linhas do livro, isso poderá ser fatal, pois se você se perder no texto, poderá até tentar improvisar, mas preso na narrativa, jamais conseguirá voltar à contação – e uma palavra esquecida é o assassinato da narrativa.
Após adaptar a história e ensaiá-la quantas vezes for preciso (o ensaio pode ser individual, na frente de um espelho, ou apresentado para pessoas fiéis a você, que digam a verdade sobre o que estão ouvindo e vendo, se realmente a contação foi boa ou péssima) é necessário criar o seu próprio figurino, o mais indicado é que seja: calça, camisa/camiseta e calçados pretos – pois não é você que tem que chamar a atenção do público e sim a história que será apresentada - e seu estilo próprio para narrar.**
Preparado para desempenhar a contação, com a história escolhida já adaptada, ensaiada e memorizada, com um figurino ideal, e com seu estilo próprio de narrar, você pode marcar o dia e o local para realizá-la. Ah, só mais um detalhe, se você quiser, pode utilizar bonecos, objetos, trilha sonora, etc... Estes recursos vão da criatividade de cada um.
Agora é só apresentar a história e se preparar para as críticas e elogios que irão vir.
___________________
* Estudante de letras na UEM e contadora de histórias. Contato: karlamorelli@hotmail.com – Texto feito para a disciplina de Literatura e Ensino, ministrada por mim ano passado.
** Vejam a foto, com a autora em ação contando histórias para crianças carentes de Mandaguari/PR.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Sansão no IV Sarau Outras Palavras

Sansão cantando sua composição Headache's Blues durante o IV Sarau Outras Palavras, dia 7 de outubro de 2010, no Bar Coração Brasileiro. Evento que encerrou a 2a Jornada Interartes Outras Palavras (2a JIOP).

domingo, 17 de outubro de 2010

Lu Galetti no IV Sarau Outras Palavras


Lu Galetti cantando no IV Sarau Outras Palavras, dia 7 de outubro de 2010, no Bar Coração Brasileiro. Evento que encerrou a 2a Jornada Interartes Outras Palavras (2a JIOP). Infelizmente, por razão de força maior, a pessoa que faria as fotos e filmaria o show não pode ir, de modo que ficamos apenas com este vídeo e o anterior, feitos por Celina Gorete da Silva, nossa salvadora (valeu Celina!).

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

2ª JIOP INSCRIÇÕES PRORROGADAS

2ª JORNADA INTERARTES OUTRAS PALAVRAS

DIA 07 DE OUTUBRO DE 2010

TEMA: FRANZ KAFKA E A LITERATURA FANTÁSTICA

INSCRIÇÕES ATÉ 5 DE OUTUBRO


Para ver a programação completa e fazer a sua inscrição, clique aqui.

domingo, 26 de setembro de 2010

Lu Galetti e Natália Ferlin no II Sarau Outras Palavras

Show de Lu Galetti no II Sarau Outras Palavras, realizado durante o II CONALI,
outubro de 2008.

Título da música: Olhando
Letra e música: Lu Galetti

Músicos:

Baixo: participação de Natália Ferllin
Vocal: Lu Galetti
Guitarra: Loro
Bateria: Sandro Baquete
Teclados: Hanson

ATENÇÃO:
Lu Galetti estará no IV Sarau Outras Palavras, evento que finaliza a 2a JIOP. Para saber da programação do evento e fazer a sua inscrição, clique aqui.

domingo, 19 de setembro de 2010

Apresentação da Revista JIOP


A Revista JIOP e suas singularidades

A Revista JIOP – que será lançada dia 7 de outubro, durante o IV Sarau Outras Palavras – é mais uma conquista do Projeto Outras Palavras e do Departamento de Letras (DLE) da UEM. Sua importância maior reside em sua singularidade, ou melhor, em suas singularidades. Primeiro: é uma publicação digital (em DVD), o que lhe possibilita apresentar não somente textos escritos e imagens, mas também vídeos e links pra internet, tornando-a bastante interativa na medida em que o leitor poderá navegar facilmente pelos hipertextos sugeridos em cada artigo ou seção. Segundo: é a primeira publicação do DLE que privilegia a literatura e outras artes, o que acontece em um momento propício, visto que no ano que vem (2011) estarão iniciando as primeiras turmas dos cursos de Artes Cênicas e Artes Visuais – os quais terão nela um canal de publicação. Terceiro: é uma revista que, não sendo estritamente acadêmica, posto que privilegie a divulgação cultural, está voltada para a comunidade em geral, aceitando textos de alunos de graduação e não acadêmicos. Quarto: é a primeira publicação – fora algumas revistas on-line – que abre espaço para os artistas locais, servindo à promoção e divulgação da arte realizada em Maringá e região.

Sobre a primeira edição da Revista JIOP

O primeiro número da Revista JIOP teve sua editoração eletrônica feita pelo colega Fábio Lucas Pierini – que teve a brilhante ideia para a sua logo, que pode ser vista acima – e apresenta as seguintes seções:

a) ARTIGOS - com oito ensaios sobre literatura e outras artes:
.....Literatura e teatro: encontros e desencontros formais e históricos, de Alexandre Villibor Flory,
.....A narrativa e as ilustrações nas Metamorfoses de Ovídio: leitura do texto e da imagem, de Clarice Zamonaro Cortez,
.....Brecht: estranhamento e aprendizagem, de Eduardo Fernando Montagnari,
.....Sexto sentido, Corpo fechado e Sinais – filmes dentro das teorias literárias, de Fábio Lucas Pierini,
.....Literatura e cinema na sala de aula: uma análise da tradução cinematográfica de O cortiço, de Marciano Lopes e Silva,
.....O kitsch em Romeu e Julieta: Luhrman e Shakespeare, de Marisa Corrêa da Silva, Literatura e cinema: aliados na (re)construção da identidade nacional, de Margarida da Silveira Corsi,
.....O inconstituído nacional sob uma perspectiva culturalista: a antropofagia tropical, de Patrícia Marcondes de Barros;

b) PAINEIS – com os resumos de pesquisas e trabalhos sobre literatura e outras artes apresentados na 1ª JIOP;

c) CRIAÇÃO LITERÁRIA – com poemas e contos de diversos autores: Ademir Demarchi, Ivan Téo, Gisele Cezar, Luciana Brites, Marciano Lopes, Mário donLeal, Nelson Alexandre, Nívea Martins, Sansão e Valéria Eik;

d) ARTES PLÁSTICAS – com fotos de esculturas e pinturas de Gisele Cezar e Mário donLeal;

e) REVISTA POP – com link para as melhores postagens da Revista Outras Palavras;

f) FOTOS – com fotos da 1ª JIOP;

g) VÍDEOS – com vídeos das performances teatrais, leituras dramáticas e shows musicais (de Sansão e amigos do Blues e de Eduardo Montagnari) apresentados na 1ª JIOP;

h) NORMAS – com as orientações para quem quiser publicar na revista JIOP.
Quem tiver o desejo e a curiosidade de estar entre os primeiros a conferir o resultado, é só comparecer no seu lançamento, dia 7 de outubro, 19 horas, durante o IV Sarau Outras Palavras, evento que encerrará a 2ª JIOP.

Marciano Lopes
Diretor da Revista JIOP

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Sai pra lá, Maria Kafka!


Abaixo, o texto que deu origem à aula-espetáculo "Sai pra lá, Maria Kafka", de José Pedro Antunes. Aula-show que será apresentada na 2a JIOP, dia 7 de outubro.



“Sai pra lá, Maria Kafka!”

José Pedro Antunes (Unesp-Araraquara)



“Sai pra lá, Maria Kafka!”, foi o que ouvi dizer no quarto ao lado, juntamente com o espoucar de vassouradas nervosas (ou era um chinelo que cantava na parede?). O chega-pra-lá tinha por alvo uma reles barata, bem brasileira, naquele hotelzinho de terceira, Deus sabe onde, e não o “inseto monstruoso” em que se viu transformado Gregor Samsa, ao despertar (não apenas na tradução feita diretamente do alemão por Modesto Carone), “de sonhos intranqüilos”.
Houve uma vez os INIMIGOS DO REI e uma canção de sucesso sobre uma barata chamada Kafka, com o refrão genial: “Vem K. ficar comigo!”. Mas isso foi muito depois de ter havido, para infelicidade de muitos, como querem outros tantos, um certo Torrieri Guimarães. Esse entrou para a história por ter traduzido quase toda a obra do escritor tcheco “diretamente do original americano”. Conheço quem o defenda, pessoas que não se sentem lesadas, por ter feito o que lhe foi possível fazer a seu tempo.
Ocorre que, depois dessa sua famigerada tradução, as letras pátrias se viram infestadas por Joões e Marias Kafkas, fato que levou o poeta Carlos Drummond de Andrade a se sair com uma tirada de gênio: “Kafka, um autor que se tornou mundialmente famoso por imitar diversos escritores brasileiros”. Quem nos conta essa, entre tantas outras impagáveis, é o Otto Maria Carpeaux de “Meus encontros com Kafka”, um ensaio memorável; ele que, aos 21 anos de idade, enfrentou dificuldades em seu primeiro encontro com o franzino Franz, na época, lá como cá, tão desconhecido quanto ele. Foi numa festa em Berlim, povoada de celebridades, que ele quis saber, de um amigo, quem era o rapaz de aparência soturna, isolado a um canto. Ouviu que era o autor de alguns contos esquisitos, um certo KAUKA, não tinha nenhuma importância.
Ao rever o filme O Processo, de Orson Welles, eu me pergunto como, se e quanto o criador de Cidadão Kane não terá metido o pé na mesma canoa furada em que terá naufragado o bravo Torrieri Guimarães. O filme também surgiu num momento em que, pela mão dos editores americanos, Kafka em definitivo se instalava na Weltliteratur, mais sisudo e soturno, com toda certeza, do que aquele rapaz magrinho, o mesmo rosto da foto que tanto intrigara o jovem Peter Handke (“se espinhas não tivera?”), sobrancelhas espessas, um principiante, incógnito no grand monde literário berlinense.
Foi Roman Polanski, quando da montagem de A Metamorfose, em Paris, já ao final do século passado, ele próprio no papel de Gregor Samsa, quem chamou a atenção dos críticos para a não compreensão de algo tipicamente eslavo, um humor lingüístico que se houvera instalado nas entrelinhas do alemão protocolar do autor tcheco que escrevia em alemão, com expressões capazes de sugerir coisas absurdas, incompreensíveis talvez para ouvidos ocidentais, como a idéia de um sujeito qualquer, um obscuro e cumpridor funcionário de uma Companhia de Seguros, um belo dia, acordar transformado num inseto. Ainda mais, eu acrescentaria, com a contribuição milenar de todos os erros, passando pelo auxílio luxuoso das traduções indiretas e do caótico boca-a-boca que assegura a permanência das obras literárias, seja como êxito, seja como fracasso.
Ou não será que o Ocidente, com o ardor de quem ainda não encontrou suas palavras, ansiasse por visões que o ajudassem a compreender situações que, a partir de então, seriam descritas como “kafkianas”, fantasmagorias de uma vocação totalitária latente, pronta para explodir, pipocar por toda parte ao longo de um século, que hoje, pelo retrovisor, e cheios de incredulidade, tentamos localizar na bruma espessa do tempo? Welles optou por uma interpretação sociológica, bem ao gosto dos jovens que ocupariam as ruas naquela década prodigiosa.
Para falar da importância de Kafka, Carpeaux lembra que só Dante e Shakespeare chegaram a tanto, ter seus nomes incorporados, como adjetivos, ao falar cotidiano das pessoas em todo o mundo. Entre “cenas dantescas” e “tiradas shakespearianas”, para não remontar aos “porres homéricos”, bem anos 60, o mundo aprendeu a conviver com o “absurdo kafkiano”, que alguém já achou de dizer “tão nosso”.
Eu nunca havia imaginado uma trilha sonora para Kafka, como se sua linguagem protocolar não comportasse partitura, como se os pesadelos dispensassem melodias. Em O Processo, de Orson Welles, a surpresa de vê-lo pontuado pelo patético do Adaggio de Albinoni.
Para os estudiosos, e alguns sequer conseguem aceitar tranqüilamente que a autoria seja mesmo de Albinoni, o órgão foi acrescentado ao que restara de um fragmento barroco, alguns compassos e a linha do baixo, supondo que originalmente se destinasse ao uso religioso. No filme, é inevitável que isso aconteça, a sonoridade remete à longa tradição da interpretação teológica do escritor tcheco.
Contrariando o desejo do amigo, Max Brod não apenas deixou de queimar-lhe os escritos inéditos, como tratou de cercá-los, na publicação, de uma exegese tendenciosa. Criava-se um mito. Em seu artigo “Kafka nunca foi santo”, Milan Kundera documenta a metamorfose de Kafka em sisudo sofredor tísico e assexuado, mártir, cordeiro pascal que viveu e morreu pela humanidade.
A página de entrada de um site – que já nem está mais no ar, e da qual talvez só este ensaísta detenha uma cópia –, sugeria um altar: sobre fundo preto, a foto do escritor, efígie ovalada ao centro, ladeada por dois castiçais, duas velas bruxuleantes. Por mim, a página traria, à guisa de epígrafe, uma frase de Peter Handke em Fantasias da Repetição, um dos volumes que fez publicar com suas anotações diárias: “Eu odeio Franz Kafka, o Filho Eterno!”
Mas o filme de Welles traz uma outra música, mais próxima da ausência de música que eu imaginara: 850 máquinas de escrever, espalhadas sobre 850 escrivaninhas, tecladas simultaneamente por 850 funcionários no cumprimento de suas 850 rotinas cinzentas, rigorosamente idênticas.
Essas e outras cenas, que o cineasta, por problemas de última hora (Guerra Fria), não teve permissão para rodar na Iugoslávia, foram transferidas para os suntuosos espaços vazios da Gare d’Orsay, em Paris, então desativada. Na montagem, Welles chega a fundir, numa única cena, monumentos arquitetônicos de três diferentes cidades: Zagreb, Paris e Milão. Num cenário de pesadelo, tudo termina num único e uniforme espaço desumanamente burocratizado, o espaço da Lei, em cujo interior, povoado por uma hierarquia indevassável de juízes invisíveis e pela estropiada multidão dos sentenciados, o processo morosa, incompreensível e interminavelmente se arrasta.
Condena-se o viés sociológico do filme, mas, com todos os senões, ele traduz aspirações de uma época, os anos 60. De quebra, ajuda a superar a fraude teológica e a extensa folha de desserviços prestados à literatura - não só de Kafka - pelo recurso à psicologia.
As gargalhadas que Peter Bogdanovich ouviu de Welles no escuro das cinematecas européias fazem supor que, para ele, o "absurdo kafkiano" tivesse algo de afetação, de comédia, de pantomima.
Tanto em Kafka, como em Welles, as cenas finais, com Joseph K. sendo arrastado ao local do sacrifício por dois algozes de pastelão, são dignas dos melhores cartunistas.
Nos desenhos do próprio Kafka, sugestões de ordem não-verbal parecem comentar seus ataques de riso ao ler passagens do texto para os amigos.
Kafka deixou de ser apenas um escritor, diz Peter Handke, para se tornar um personagem da humanidade. Esboço do homem comum, esse ser coletivo, seu feito só se compara ao de um outro grande artista do século XX, outro grande humorista: Charlie Chaplin.
Recém-egressa do papel de Sissi, a imperatriz adolescente do Império Austro-Húngaro, que provocou suspiros e lágrimas de esguicho por três episódios de uma série famosa, que salto não terá sido, para Romy Schneider, trabalhar com Welles em O Processo.
Entre os guardados de um sótão, sua personagem, Leni, pratica uma das raras cenas de sexo de uma obra, a de Kafka, repleta de alusões vagamente homoeróticas e assombrada pelo pavor adolescente ante a descoberta, pela mãe, dos lençóis maculados por poluções noturnas ou pelo vício solitário.
A questão, para Peter Handke, repito, era saber se o “Filho Eterno” nunca terá tido espinhas. Em O Castelo, o sexo é praticado atrás do balcão da estalagem, entre caixotes, garrafas e poças de cerveja.
Assim, é atrás de migalhas que se esfalfam os exegetas da vertente psicanalítica, que, sem ganhos expressivos, só faz engrossar a enxurrada das interpretações psicologizantes. E isso, muito depois de Hans Mayer ter perpetrado o seu: “Kafka ou Pela última vez psicologia”.
No plano da realidade, Romy contracena com “o filho que era a mãe” (na piada, esse o título de Psicose, de Alfred Hitchcock, em versão portuguesa). A escolha de Anthony Perkins para viver Joseph K. nunca foi engolida pela crítica. Sua atuação, considerada histérica, costumava ser recebida como traição à sobriedade da linguagem protocolar de Kafka. Só depois de morto, com tudo o que se soube acerca de seus complexos, angústias existenciais e homossexualismo problemático, é que ela passou a ser redimensionada.
Na Trilogia Kafka, que Gerald Thomas criou nos anos 80, consigo localizar, de memória e muito à distância, algo do humor que Polanski aponta como perdido para a recepção ocidental. Tendo sabido apreender o elemento caricatural da criação kafkiana, Thomas povoou de cinzentas personagens de pantomima a imensa biblioteca que concebeu como cenário. Aos pares ou em trio, elas passavam o tempo a tricotar ou a repetir, mecanicamente, sincronizadamente, os mesmos gestos grotescos.
Em O Veredicto, há outra cena que talvez não tenha sido ainda devidamente percebida como de comédia. De camisola, enfermo e dominador, o pai ancião saltita acintosamente sobre o leito, para melhor torturar o filho, que, em desespero, desce correndo a escada, chega até a rua, apressa-se até a ponte, de onde haveria de se projetar, para cumprir a formidável condenação paterna que sobre ele desabara. Num típico epílogo kafkiano, o último parágrafo faz saber que a cidade vivia o seu normal, com o tráfego a fluir regularmente pela ponte e arredores.
É a mesma tranqüilidade com que a família, liqüidado o “inseto monstruoso”, sai a passear pelo parque ensolarado, ou o artista da fome, em narrativa homônima, é varrido com a palha da jaula onde ocupara o lugar de uma pantera.
A interpretação sociológica, que norteou a leitura de Welles, teria vida longa. Pelo viés da Teoria Crítica, que, redescoberta pela geração de 68, continua a inspirar gerações de leitores, o autor tcheco não faz senão relatar o percurso sinistro de uma sociedade que caminha para ser totalmente administrada.
Mas a gravidade das conseqüências não descarta o grotesco dos desdobramentos possíveis. Não deixa de ser engraçada, como no filme de Welles, a visão futurista dos enormes espaços fascistas, a abrigar miríades de outras Marias Kafka.
Das experiências totalitárias de direita (nazi-fascismo) e de esquerda (socialismos diversos), ao neoliberalismo econômico que veio a um só tempo coroar e pôr em xeque o capitalismo, sabe-se quanto os tropeços de um pensamento único e as trapalhadas da burocracia podem servir de inspiração ao humor dos cartunistas. Haja inseticida! Ou vassouradas!

terça-feira, 7 de setembro de 2010

A contrapelo, de Marciano Lopes - livro & CD

Para adquirir, faça contato com o autor pelo e-mail: etlopes@hotmail.com

Links para ouvir algumas músicas do CD A contrapelo:




Ouça aquivos MP3 do Programa Outras Palavras com os poemas:
Lições de História - O poeta gauche e os arautos do Senhor - Migalhas - Sinuca e Viagens.

IV Sarau Outras Palavras - Nova Programação


ATENÇÃO

Após 22 horas, a noite segue com muito samba/pagode com o grupo Opção.
O IV Sarau Outras Palavras faz parte da programação da 2a JIOP. Para saber da programação do evento e fazer a sua inscrição, clique aqui.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Vídeo: "Mirando Janis Joplin" - Poema: Marciano Lopes - Compositor e intérprete: Lu Galetti

A apresentação acima foi durante o II Sarau Outras Palavras, realizado em 21 de outubro de 2008 durante o II CONALI (II Congreso Nacional de Linguagens em Interação). Apesar de ter feito a composição musical para o poema "Mirando Janis Joplin" (ex-"Quando se fala de cadeira"), a surpresa da ausência de Ivan Teo, que ia interpretá-la, levou Lu Galetti a improvisar sua interpretação. Fica aqui o registro de sua sensível recriação da própria obra (rs rs rs) e mais uma demonstração da fertilidade deste poema meu que me é deveras querido, pois tem muitas histórias. Entre elas, sua interpretação por Ivan Teo no I Acorde Universitário (vídeo postado aqui no ano passado).
marciano lopes

sábado, 4 de setembro de 2010

Lu Galetti no Sarau Outras Palavras: Overdose Blues



Show de Lu Galetti no II Sarau Outras Palavras, realizado durante o II CONALI,
em outubro de 2008.

Título da canção: Overdose Blues
Letra e música: Lu Galetti

Músicos:

Baixo e vocal: Lu Galetti
Guitarra: Loro
Bateria: Sandro Baquete
Teclados: Hanson

Para quem perdeu o show de Lu Galetti no II Sarau Outras Palavras, uma outra chance:
ele estará no IV Sarau Outras Palavras, dia 7 de outubro, no bar Coração Brasileiro.

ATENÇÃO:
O IV Sarau Outras Palavras faz parte da programação da 2a JIOP. Para saber da programação do evento e fazer a sua inscrição, clique aqui.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

IV Sarau Outras Palavras - 7 de outubro no Coração Brasileiro

O IV Sarau Outras Palavras faz parte da programação da 2ª Jornada Interartes Outras Palavras (2a JIOP). Para saber da programação da 2ª JIOP e se inscrever no evento, clique aqui.

Durante o IV Sarau Outras Palavras haverá sorteio de livros de literatura e crítica para os participantes da 2ª JIOP. Para saber mais e se inscrever no sorteio, clique aqui.

ATENÇÃO:
Por motivo de força maior, não haverá o show de Geraldinho do Cavaco, Pezinho e Bebezão, mas a noite não ficará sem o embalo da terra. No lugar teremos show com o Grupo Opção após 22 horas.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Lu Galetti no Sarau Outras Palavras




Abertura do show de Lu Galetti no II Sarau Outras Palavras, realizado durante o II CONALI, em outubro de 2008.

Músicas:
a) Cabeça (letra e música de Lu Galetti)
b) Blip blip down (poema de Marciano Lopes e música de Lu Galetti)

Músicos:
Baixo e vocal: Lu Galetti
Guitarra: Loro
Bateria: Sandro Baquete
Teclados: Hanson


Para quem perdeu, uma outra chance: ele estará no
IV Sarau Outras Palavras, dia 7 de outubro,
no bar Coração Brasileiro.

O IV Sarau faz parte da 2a JIOP (2a Jornada Interartes Outras Palavras), que ocorrerá no mesmo dia e terá como tema a literatura de Franz Kafka.

Abaixo programação da 2a JIOP:

2ª JORNADA INTERARTES OUTRAS PALAVRAS (2ª JIOP)
DIA 07 DE OUTUBRO DE 2010
TEMA: FRANZ KAFKA E A LITERATURA FANTÁSTICA

MANHÃ & TARDE
Local: Teatro Oficina da UEM
Exposição permanente de fotos com apresentações do TUM

8:00 – 10:00 – Projeção do filme O processo (1962, Direção: Orson Welles), adaptação da obra homônima de Franz Kafka.
10:00 – 10:15 – Intervalo
10:15 – 11:45 – Mesa-redonda: Kafka e a literatura fantástica – Dr. Milton Hermes Rodrigues e Ms. Fábio Lucas Pierini (UEM) – Mediador: Dr. Márcio Roberto do Prado (UEM)

14:00 – 16:00 – Aula-show sobre a literatura de Franz Kafka com o prof. Dr. José Pedro Antunes (Unesp-Araraquara)
16:00 – 16:15 – Intervalo
16:15 – 17:15 – Bate-papo sobre a literatura de Kafka com os professores Dr. José Pedro Antunes (Unesp-Araraquara) e Dr. Márcio Roberto do Prado (UEM)

NOITE
Local: Bar Coração Brasileiro (Av. Cerro Azul, 412) – IV Sarau Outras Palavras


ATENÇÃO: Varal de Poesias e palco aberto à participação dos presentes

19:30 – 22:00 – Lançamento da Revista JIOP - MPB & Pop Rock com Lu Galetti, Sansão e amigos
22:00 em diante – Samba e pagode com o grupo Opção

INSCRIÇÕES: apenas R$ 30,00 através do blog Revista Outras Palavras.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Um conto de Nelson Alexandre: "Existência mínima"

Existem divisas no braço rude da fragilidade, que inspiram a redução da capacidade de metabolizar qualquer sentimento de lealdade. Ela abre a boca e mostra uma fileira de dentes como uma correia dentada num motor composto por peças que são órgãos de criaturas bizarras. Ela sopra vanguardas sob as partículas mortas de uma lenda antiga, deitada sobre as descargas elétricas de pensamentos reprimidos. Ela levanta as saias e mostra a entrada de um mundo preso por discursos políticos e fundamentalismos relacionados a mesquinharias caseiras. Ela nunca pede o meu órgão de conexão para uni-lo à sua complexa caverna de surpresas, num casulo de nódea eterna.
Ela faz jorrar os sonhos nos canais de carne viva, mostrando a sua beleza em um corpo dotado de um fino veneno. Sou o velho oráculo anexado a uma juventude que me liga a uma fonte de energia libidinosa.
Eu peço para que entre no carro. Ela dá impressão de estar desconfiada de claustrofobias autobiográficas. Pensamentos em caixas de fósforos em chamas. Finalmente partimos.
Hora ou outra dou uma olhadela nas coxas, na boca proibida que se forma naquelas pernas, e que fazem um discurso apoteótico a favor de que eu possa deslizar as mãos sobre elas. Eu vejo uma poesia suja, vestida com uma túnica de algodão, com papoulas cobrindo cada um dos seios.
Há um momento em que ela silencia a minha boca de besteiras radiofônicas, pronunciando o meu nome com brasas vivas na língua. Aparenta não querer chupar, mas quer, mas não chupa.
Língua abrasadora na glande é uma liquidação num dia em que estou duro. Eu tento a aproximação por amizade e consideração. Ataques leves com meus tentáculos de polvo faminto. Labirintos se cruzam num espaço mínimo de bolinação.
Ela corta a cena e a existência do nosso pequeno filme, assim, abruptamente. Derruba a câmera, vergando sobre mim uma acusação de total assédio, mostrando uma cara de falsa inocência que desaparece depois daquele sorriso de chupetinha não-feita.
“Qué pará?”
A noite é fria, chuvosa e nervosa em Space City.
Os dedos das minhas mãos parecem pit-bulls devoradores de mocinhas. Mas não há acordo. Apenas o velho “brigado, fulaninho!”
O som da porta batendo e se fechando. A imagem de suas costas nuas se movimentando em direção a um horizonte de discos voadores rasgando o céu e virando uma explosão de gozo solitário.
Nós existimos somente na zona proibida.
Num local ermo. Com pântanos gasosos exalando cheiros conspiradores. Gases tóxicos que estimulam o poder de ejaculação da besta de três cabeças e nenhum cérebro. Há, apenas, um número de candidatura sugando pensamentos mesquinhos. Interesses que manipulam um gado novo que é o mesmo gado velho e viciado. Engolidor de ruminações estéreis e promessas de vantagens não-cumpridas.
Nós não existimos.
O que existe, na verdade, é uma mancha negra crescendo no hemisfério direito do cérebro, em explícito boicote ao hemisfério esquerdo.
Quero que ambos se extingam.
Quero pensar numa existência mínima, desvinculada de todo empolamento de artifícios literários. Quero que ela volte. Dessa vez, não quero o desenho morto e suturado de suas costas indo em direção à gênese do nosso relacionamento natimorto. Eu a quero como todo homem quer uma mulher.
Empalada nele.

Ajude Nelson Alexandre a lançar seu primeiro livro lendo Affonso Romano de Sant'Anna

O amigo, poeta e contista Nelson Alexandre, de quem já apresentei vários poemas e vídeos na Revista Outras Palavras, está para publicar seu primeiro livro. Até aí, normal, pois mais cedo ou mais tarde, quem trilha essa estrada, dá um jeito de fazê-lo. A grande surpresa é que ele o faz com o apoio de Affonso Romano de Sant'Anna!!! E o mais incrível é a forma como isso sucedeu: publicando seus textos (poemas e contos) na internet - mais especificamente em seu blog http://encruado.zip.net/ - Nelson Alexandre foi descoberto por uma professora que ...


para saber o que ocorreu, leia o texto (publicado no jornal O Diário Norte do Paraná) do jornalista (e também amigo e contista) Alexandre Gaioto na Revista Outras Palavras.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

"Recuerdos" - Argentina y Uruguay



O vídeo acima foi feito pelo amigo Anjo Polenta com fotos da viagem que ele e seu orientador nos estudos de Ecologia Urbana fizeram a Buenos Aires e Montevideo, em julho deste ano, para deleites de pesquisa. É claro, deleites artísticos e literários também. Não falo pelo fato de tê-los acompanhado até Buenos Aires, mas porque Juan é um declarado admirador de Borges, o que fez com que trilhássemos um pouco a sua mítica Buenos Aires. Muito feliz na montagem (nem um pouco aleatória), Polenta teve a sensibilidade de associar a imagem do escritor ao do tigre branco, obsessão do autor muito lembrada por nosso amigo espanhol. Aliás, há várias sequencias de imagens que são sutilmente irônicas... (a da estátua de Vênus focalizada quase em closed no seu sexo seguida das imagens do macaco e dos lagartos é deliciosa, caro amigo!).

Bela narrativa ambientada no "Sul" ao som de Astor Piazzola. Perfeito!

Marciano Lopes

(Ah! as fotos foram feitas por nós três.)

sábado, 14 de agosto de 2010

Fênix - de Marciano Lopes e Tisley Barbosa

FÊNIX

Não, não é na terra
que a pá
a lavra encerra

(e menos encerra
a força da fera
que grunhe e berra
e mata sem dor).

A pá-
lavra
asas
tem olhos
e garras.

Peleja
chama
e semeia/o
cinzas
cóndor.

Fênix, Fênix, Fênix...
Fênix, Fênix...

Oh! deuses dos Olimpos
e desse inferno sagrado!
Oh! deuses dos desumanos,
dos corruptos, desgraçados!
Oh! deuses dos mentirosos,
invejosos, dissimulados!
Oh! deuses dos assassinos,
do Prometeu acorrentado!

Fênix, Fênix, Fênix...Fênix, Fênix...
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Poema de Marciano Lopes
Trecho em itálico e música de Tisley Barbosa (foto acima, feita por Fábio Pereira)
Gravação do CD A contrapelo de Marciano Lopes

Para ouvi-la e mais duas outras composições de Tisley Barbosa, clique aqui.

domingo, 8 de agosto de 2010

Lu Galetti no IV Sarau Outras Palavras

Acima, vídeo oficial da canção "Viagem à três", de Lu Galetti, cantor e compositor maringaense que estará se apresentando no IV Sarau Outras Palavras (IV SOP), dia 7 de outubro, no bar Coração Brasileiro (Av. Cerro Azul, em frente ao bar Guadalajara, quase em frente à "Praça de Patinação"), a partir das 19 h 00. O IV SOP faz parte da II Jornada Interartes Outras Palavras (II JIOP), evento cuja programação estará disponível neste blog e no blog do Projeto Outras Palavras até o final deste mês, no entanto podemos adiantar que durante o IV Sarau estaremos lançando a Revista JIOP (número 1, em formato DVD), que conterá os resumos dos paineis apresentados durante a 1a JIOP, artigos sobre literatura e artes, criação artística (poemas, contos, vídeos de música, fotos de obras de artes plásticas) e links para uma seleção de textos/postagens da Revista Outras Palavras (on-line).
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marciano lopes

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Parodiando Bandeira: "Vou-me embora para Gaya"

Ah! Vou-me embora pra Gaya
Que lá é a maior gandaia!

Lá furtarei muito doce
Na padaria que eu escolher.
Brincarei a qualquer hora
De médico e esconde-esconde
Futebol e vídeo-game.
Soltarei meu papagaio
Com bandeirola e cerol
Sem que a ninguém ele mate
Nem se enrosque no farol.

Vou-me embora para Gaya
Que aqui tudo é muito chato.
Tem “fessora” carrancuda.
Bicho de pé carrapato.
Hora pra acordar zoar brincar
Tomar leite e coca-cola
Ver TV e navegar...
Vou-me embora para Gaya
Que lá é a maior gandaia!

E como farei bagunça!
Lá andarei de bicicleta
Patins skate patinete.
Montarei em moto e pônei.
Mascarei goma e chiclete.
E no chafariz da praça
Tomarei banho de chuva
Fazendo pipi de graça.
Vou-me embora para Gaya!

Lá tem sapo de três olhos.
Elfos gnomos duendes.
Macaquinhos saltitantes
E geninhos sorridentes.
Mas o mais legal de tudo
Eu só vou falar agora:
Lá tem lindas princesinhas
Pra namorar noite e dia
Com a bênção das fadinhas!

E quando eu estiver cansado
Cansado que não tem jeito
Quando de noite me der
Vontadinha de nanar
– lá sou amigo do rei –
Chamarei minha mamãe
Pra contar novas estórias
Do livro que escolherei.

Ah! Vou-me embora pra Gaya
Que lá é a maior gandaia!
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Marciano Lopes

terça-feira, 13 de julho de 2010

A verdadeira final da Copa: Alemanha e Grécia!!!



Todo resultado de Copa do Mundo tem suas contestações. Há quem dissesse que tudo estava arranjado para a Argentina, assim como noutra copa foi dito o mesmo para explicar a razão do canarinho amarelar diante França. O que ninguém sabe, é que a verdadeira e inacreditável final deveria ser entre Alemanha e Grécia! Ao menos tratando-se do Campeonato Mundial de Futebol Filosófico! Para ver como deveria ter sido esta empolgante final bolada e jogada pelo divertido e inteligente grupo Monty Phyton, vejam o vídeo acima! Melhor do que isso, só mesmo um duelo dos mais fantásticos e gigantes técnicos de futebol do planeta Sonho: Dondengo - o gnomo estressado X Tanalona - o duende gargantua!!! Imperdível!!!

domingo, 4 de julho de 2010

Sinuca 1: "preto bate branco bate preto"


preto bate branco
bate preto
embola enrola esfola
assola
escarra escarra escarra
cuca luta dis-
puta
taco contra taco
sopapo
nuca noite coice
foice
bate bate bate
bola contra bola
bate
pelas ruas pelos guetos pelos panos
rola
bola contra bola
rola
............................

preto bate branco
bate preto
faca tapa coice
açoite
estala
bala contra bala
estala bala vala
desfia desafia afia
porfia
a faca o taco o troco
sufoco
cara contra cara
encara
caça contra caça
regaça
encara bate e cala
caçapa!
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O poema acima foi musicado por Lu Galetti e a gravação está no CD A Contrapelo, que acompanha meu livro homônimo. Para ouvi-la, clique aqui.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

45º FEMUP - inscrições até 28 de agosto!

Interessados em participar do 45º FEMUP - Festival de Música e Poesia de Paranavaí e 42º Concurso Literário de Contos, a serem realizados nos dias 18, 19 e 20 de novembro de 2010, podem se inscrever até o dia 28 de agosto.

Realizado em Paranavaí há 44 anos, o FEMUP, um dos festivais culturais mais tradicionais do Brasil, é uma iniciativa da Fundação Cultural de Paranavaí. O objetivo do evento é intensificar o intercâmbio artístico entre todas as regiões do país, além de descobrir e valorizar novos talentos. Para participar, o interessado precisa ser brasileiro, independente de residir no país ou não. As inscrições são gratuitas.

O regulamento e a ficha de inscrição estão disponíveis para download no site http://www.novacultura.com.br/

Mais informações em: (44) 3902-1128 ou cultura@fornet.com.br
Participe e boa sorte!

POR FAVOR NOS AJUDE DIVULGANDO ESTE FESTIVAL!
NOSSA DIVULGAÇÃO É BASICAMENTE VIA INTERNET.

Amauri Martineli
Diretor Cultural

INFORMAÇÃO IMPORTANTE:

Através de consulta realizada com a comunidade artística e depois de muitas reuniões, a Fundação Cultural de Paranavaí resolveu, a partir de 2010, transformar o FEMUP em uma grande Mostra. Retirou-se a premiação e aumentou-se a ajuda de custo. O trabalho de triagem continua o mesmo, as comissões deverão selecionar as melhores músicas, poesias, contos e declamadores. É a evolução de um Festival que há mais de quatro décadas vem incentivando, descobrindo e firmando talentos por todo o Brasil. É a contribuição artística da Cidade Poesia para nosso país.

Sinuca 2: Taco contra Taco

embola enrola volteia
bate
enrola esnoba floreia
bate
cuca luta bruta pura
disputa
taco troco truco traço
no braço
bola contra bola bate rebate
e gira
pelos cantos pelas beiras pelos panos
rola rola
bola contra bola bate rebate
estala
bola contra bola rela rala rinha risca
desliza
bola contra bola bate rebate reganha rebola
encaixa
taco a taco ferro fere firme forte
fácil

última bola:
cara a cara encara mira e cala
caçapa
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marciano lopes

terça-feira, 29 de junho de 2010

No ritmo da Copa: poesia de pé em pé!

VELEIDADES DA VIDA
(ou a vida como ela é)

em memória de Nelson Rodrigues


Tá tá tá tá chegando a hora!!!!!
O peito bate que bate
no tique-taque do relógio
e faz das tripas coração!
Vibra a galera grita a galera
pede o fim da partida
mas a bola ainda rola
rebola remexe rebola
remexe rebola remexe
bate pinga e rebate
mexe bate e remexe
de pé em pé em pé
pica passa e repassa
peito bola perna
tronco tapa coxa
rebola esfola e bate
com fúria força e garra
arranca a tinta o flash a TRAVE !
o berro da galera o cravo a canela
dá-lhe samba suor e cachaça
de graça arregaça a raça
o bagaço a bunda a banda
balança rebola remexe
o peito o rádio a corneta
o apito a dor a mutreta
a pilha a pedra a retreta
no campo no pé na cabeça
pula
pica
rola
toca
dribla
passa
e lança
fundo
pra entrada do ponta que cruza livre pro craque na boca da área que chapéu! ginga vira e
olha o b(r)eque!
FILHA DA PUTA FILHA DA PUTA FILHA DA PUTA
bolina bolina bolina
bolina beija batuca e balança
depois reza pra Jesus Cristo Nosso Senhor
e bate
G
OOOOOOOOOOOOOOOOOO
OOOOOOOOOOOOOOO
OOOOOOOOOOOO
OOOOOOOOO
OOOOO
OOO
OO
O
L
A
Ç
O
A REDE O PAU A PEDRA
BALANÇA DANÇA QUEBRA
Ah! que espetáculo
a manada brotando nas galeras
escorrendo pelas ruas
macunaimando
arrastando pelas praças
bandas bolsas bundas
berrantes bois botecos
tapas tripas tropas
tecos trecos telecotecos
truques trocos trucos
latas cacos trapos
cracas cacas cocas
pernas copos bocas
coxas colchas trouxas
bocas braços pernas
braços abraços amassos
crassos de bruços devassos
mais mais mais e mais
de cabeça à beça
nas veleidades da vida!
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marciano lopes

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Novidades no blog e da amiga e poeta Luciana Brites

Caros leitores,

O blog está de cara nova. Acredito que cheguei a um design que permanecerá por muito tempo, espero que gostem (podem dizer se sim ou não nos comentários deste post, não descobri como montar um gadegt de enquete).
Hoje meu amigo Anjo Polenta me mostrou como adicionar contador de visitas e de leitores online. Começo a contagem com um ano e dois meses de atraso - quantos terão por aqui passado neste tempo? mistérios...
Aproveitando o momento de informes, divulgo que a amiga e poeta Luciana Brites estará em Paranavaí dias 15 e 16 & 22 a 23 de julho realizando uma série de atividades conforme segue:

a) meditação e mantras pela manha na praça do teatro ou outra praça.
b) oficina de prática de stencil e técnicas de reciclagem.
c) bate papo sobre alimentação vegetariana, vegana e viva
d) oficinas de cozinha e CRUzinha (alimentos crus, com ideias para germinar, preparar e aproveitar melhor tudo que o alimento pode nos oferecer).

Interessados escrevam para seu e-mail: freitasbrites@hotmail.com

marciano lopes

terça-feira, 22 de junho de 2010

Vídeo: "Dom Quixote Dali" - Poema: Marciano Lopes - Música: Ivan Téo



A canção acima - interpretada por Ivan Téo - foi feita para o poema "Dom Quixote Dali" (com algumas modificações do amigo). A gravação está no CD que acompanha o livro A contrapelo, lançado em 2007 com o apoio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura.

DOM QUIXOTE DALI

Dom Quixote manchado,
cavaleiro das taças quebradas,
envolto em moinhos
de sonhos e mágoas,
avante!.. avante!...
Impávido
pelos trilhos utópicos
alucinado a rodar e a rodar e a rodar
em sonhos...
carrossel...
Atravessa os túneis,
penetra a terra,
move os céus e as montanhas,
estrela a brilhar em consternação...
Constrói o futuro
e cola os cacos da história!
Tu que és trapeiro doido da lua,
eternamente um louco salvador...
Tu que és trapeiro doido da lua,
eternamente salvador dali...
Dali, daqui, de lá, acolá...
Evoé!
Avante Quixote!
Ole!... Ole!... Ole!...


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FICHA TÉCNICA:
D. Quixote Dali: poema de Marciano Lopes (adaptado por Ivan Téo)
Música e voz: Ivan Téo
Violões: Ivan Téo (de 12) e Paulinho Borges (nylon)
Violoncelo: Clodoaldo Nunes
Vozes no “ole!”: Marciano, Miguel, Carmen, Mateus e Manoela.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Novos "epigramas lights"


O naufrágio de Victor Meirelles

Batalha Naval do Riachuelo.
Triste tela apodrecida,
náufraga na memória.
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Santíssima Trindade


Big Mac
Big Brother
Big Bush


Restaurante Congresso

Especializado em pizzas,
pastelões e marmeladas.
Aceita-se mensalistas.
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marciano lopes

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Enivrez-vous!


O poema é fruto das reflexões feitas durante a disciplina de Literatura Comparada - Interartes, ministrada pela Dra. Maria Adélia Menegazzo, autora de Alquimia do verbo e das tintas nas poéticas de vanguarda (1991). Cursei a disciplina durante o doutorado em Letras, na Unesp, e o poema foi apresentado em seminário sobre as relações entre poesia e pintura na arte das vanguardas estéticas.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Memórias de um São Leitor

O texto que segue foi escrito para a disciplina de "Ensino de Literatura", ministrada pelo prof. Dr. Benedito Antunes, da pós-graduação em Letras da Unesp (campus de Assis) em 2002. Foi-nos solicitado que escrevêssemos uma crônica discorrendo sobre nossos pimeiros passos no mundo da leitura, recuperando, na memória, as leituras significativas e a nossa trajetória inicial como leitores. Feito isso, os textos foram recolhidos pelo professor que os organizou em forma de livro, o qual foi disponibilizado para que nós fizéssemos a cópia e a leitura dos textos de todos os colegas. Com base nessas experiências, posteriormente discutimos o processo de formação de leitores, considerando os vários aspectos envolvidos, tais como as motivações para o desenvolvimento do gosto pela leitura, a seleção e a qualidade das obras em conformidade com a faixa etária, a importância da leitura na formação do caráter e da cidadania, entre outras questões. Foi uma experiência enriquecedora, especialmente por recuperar e compartilhar a memória de estórias individuais, possibilitando-nos uma reflexão crítica e humana sobre nossas formações como leitores profissionais.
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MEMÓRIAS DE UM SÃO LEITOR
(ou “Uma tentativa de recompor velhas teias espanadas.”)

Penso, às vezes, na minha querida D. Camila quando lembro da sua beleza e das patuscadas que os seus amigos lhe faziam. Nesses momentos, reflito que há muitas coisas desagradáveis na vida, entre as quais estão aquelas que nos despertam para os anos vividos e para velhice que se aproxima inexorável.
Talvez ela tenha razão e se eu lhe retrucasse que os anos vividos trazem experiência, sabedoria e maturidade, provavelmente me devolveria um olhar entre irônico e zombeteiro e me diria que nada substitui a vitalidade da juventude e o tempo que nunca se fez verbo. Pois é, D. Camila, rugas, netos e cabelos brancos são terríveis inimigos da mulher, embora para nós, seres masculinos, isso seja de menos. Afinal, sempre há moças e senhoras que muito apreciam o charme de um cabelo grisalho e a confortante dureza de um olhar calejado. Mas há outros incidentes que abalam a serenidade, seja de um homem ou de uma mulher, pelo que tem de imprevisto ou de freqüente.
Há tempos atrás, olhava com interesse e admiração uma moça sentada a minha frente num ônibus. Era loura, magra e alta – tipo Top Model. Quando fui descer, não me furtei à curiosidade de lhe ver o rosto e lancei um olhar 43. Que baque! Não sabia onde enfiá-la! (a minha cara! maliciosa leitora...). Não que meu olhar estivesse por demais ultrapassado, mas a bela moça ninguém mais era do que a prima de um amigo, linda menina que tantas vezes segurei em meus braços e sentei sobre as minhas pernas quando criança... Noutro dia, para meu desgosto, me chamaram de tio três vezes! Num dia só é demais, no final das contas eu não sou professor de primeiro grau – ôpa! ensino fundamental...
Outro indício dos tempos acontece quando certas discussões, que aos jovens e utopistas empolgam, nos enfadam e nos atormentam com seu cheiro de bolor (e se você o sente, então o caso é sério!). “É a arte revolucionária?” “A cultura de massa vai acabar com ela e com todos nós?” “E a televisão e o vídeo? Vão acabar com o cinema e a literatura?” ”Adultos devem ler best-sellers e histórias em quadrinhos?” “Deve-se tolerar a degeneração de uma obra-prima, transformada em linguagem de HQ?” Pra piorar, não fiz promessa pra São Luiz Durão, mas me encomendaram um memorial da minha vida de leitor. Eu e a Literatura. A Literatura e Eu. ?????????????? Memórias... memórias... além da minha ser fraca, me faz pensar em velhice, fim da vida, fechado pra balanço, livro póstumo... Ai!...
Pus-me a pensar, mas como sou alérgico à poeira não foi fácil espanejar o pó e o mofo do meu sótão. Muito menos ligar as pontas dos fios de velhas teias literárias... Só depois de muitos espirros e lágrimas pude sentar-me perante o espelho e concluir, com segurança e imparcialidade, que sempre fui um leitor sadio e normal.
Quando bem criança, lembro, ainda que parcamente, eu lia as histórias de contos de fadas, de valentes cavaleiros muito cavalheiros e de seres maravilhosos em edições fantásticas, de capas duras e ricamente ilustradas e coloridas! O Gato de Botas, Cinderela, Branca de Neve, O Pequeno Polegar, O Soldadinho de Chumbo, Ivanhoé, Ali Babá e os 40 ladrões etc... Lia também as histórias de Walt Disney e da Turma da Mônica, que era a minha favorita (a primeira coelhinha sem pensar em sexo!). Depois vieram os heróis do mundo moderno: o Fantasma e o Homem-Aranha eram os meus preferidos, mas não posso lembrar, sem saudade, do seriado Batman e Robin que passava à tarde na TV, pois misturava com humor as linguagens do cinema e das histórias em quadrinhos. Lembro principalmente quando os dois escalavam as paredes dos edifícios (numa montagem comicamente explícita) e a Bat-Girl saía da parede do beco pilotando sua lambretinha... Do Fantasma, gostava por ser exótico; do Homem-Aranha, por ser marginal e paradoxalmente desprezado por sua timidez, ousadia e irreverência. Lia também os livros de bolso, aqueles com histórias de cowboys, gangsters, policiais e terror. Lembro de duas séries: Tex e Gisele, a espiã (que “alemoa“!, pensava). Depois veio uma literatura mais culta e classe média: sucessos de Sidney Sheldon, Harold Robbins, Irwing Wallace e Morris West. Ah! Como esquecer de Sherlock Holmes e principalmente de Agatha Christie (Allan Poe veio depois, que é leitura mais séria). Como não lembrar d’O caso dos dez negrinhos e da elegante argúcia do detetive Hercule Poirot?
Como ia dizendo, aos poucos cheguei na literatura “séria”. Com quinze anos, creio, descobri, na casa de uma prima, a Revista do Círculo do Livro (garanto que maliciastes de novo...). Adorei – a revista – e por livre e espontânea vontade “sugeri” a minha mãe (que desde criança “alegrava” com insistentes pedidos para comprar revistas em quadrinhos) um apoio financeiro para que também me tornasse sócio do Círculo. Nessa mesma ocasião, fiz o primeiro pedido: Vinte mil léguas submarinas. Depois, por três anos a cada trimestre, eu tinha a alegria de receber a revista e a aflição de ter que escolher um livro entre tantos e tantas seções: o recomendado do trimestre, best-sellers, ficção científica, literatura brasileira, juvenis, humor, divulgação científica e outras seções que não me lembro. Além da alegria de ganhar algum prêmio, quando conseguia um sócio novo ou juntava tantos selos por compra de livros, muito me instruí. Sem dúvida, foi através da leitura das inúmeras resenhas e dos poucos artigos de crítica ou entrevistas que tomei conhecimento da variedade de gêneros existentes no universo literário, assim como do conteúdo e da importância de inúmeras obras, mesmo sem lê-las. E em nenhum momento a televisão e a cultura de massa me afastaram deste caminho de letras, muito pelo contrário. Os filmes que via na TV me despertavam a imaginação e me ilustravam de história, literatura e mitologia, entre outras coisas. Na época era comum narrativas de aventuras de heróis mitológicos – como Sansão e Hércules – e de romances românticos como O conde de Monte Cristo, Os três mosqueteiros e A ilha do tesouro – que aliás viraram seriados de TV como desenhos animados.
Atualmente, a relação com a TV e o cinema ainda se mantém, embora com uma qualidade diversa. Graças ao filme A ostra e o vento, de Walter Lima Junior
, fui sacado da minha “santa ignorância Batman!” e fiquei sabendo da existência do romance homônimo do escritor Moacir Lopes, o qual não era nenhuma novidade literária, visto que a obra foi editada pela primeira vez em 1964 (um ano antes de eu nascer). Ao lê-lo, descobri ser tão lindo quanto o filme, o que mais ainda me gratificou (pois normalmente considero os livros melhores que as suas traduções para o cinema ou TV). E, graças a esta descoberta, novamente soube quão delicioso pode ser mergulhar na literatura de ficção, posto que os anos de estudo e a prática de professor de literatura em muito contribuíram para o desgaste deste prazer.
Com a música não foi muito diferente. Através de Vinícius de Moraes, Chico Buarque, Caetano e Gil, entre outros, cheguei à poesia. O incentivo da escola em que estudei a partir da 6a série até o fim do 2o grau (digo, ensino médio) contribuiu com dois concursos literários, mas a semente não estava nela. Onde? Não sei. São teias irrecuperáveis. No primeiro, em que alcancei o primeiro lugar, não tive mérito, mas o tema também era muito “quadrado”: cantar o colégio. Iniciei o poema, mas como não conseguisse levar adiante tantas eloqüentes e ufanosas redondilhas, uma amiga da minha irmã valeu-se da sua experiência poética e do seu amor pelo gauchismo para compor - impecavelmente - os versos e estrofes restantes (que foram muitos!). No segundo foi diferente. O segundo lugar foi mais saboroso, pois compus o poema sozinho (a temática era livre). Não ficou nenhuma obra-prima, é claro, mas foi um sincero e romântico poema em versos livres cujo tema era o protesto à opressão e à miséria. Valeu-me de prêmio vários livros, mas o que mais me tocou entre eles foi a antologia de Manuel Bandeira, meu querido poeta que desde então trago comigo. Assim como o velho Chico, que tantas vezes carreguei para a Lancheria, Bar e Café Universitário do Nelson (onde, pra contrariar, só dava velho aposentado e alguns dinossauros do curso de Oceanologia, que eu então empurrava com a barriga, cursando-o paralelamente ao de Letras). Lá, pedia uma cerveja ou uma cachacinha com mel, uma porção de calabresa ou lingüiça, pegava a caneta e punha-me a destrinchar os versos das canções de Chico Buarque, realizando deliciosas análises (e talvez dissesse melhor se falasse “viagens”...) que me renderam “lucros” posteriores e inesperados: um trabalho para a disciplina de Teoria Literária na graduação em Letras (que depois foi reescrito para uma disciplina do mestrado, ganhando “A” e “parabéns” da professora Dra. Maria da Glória Bordini!) e dois minicursos: A poética de Chico Buarque (apresentado na UEL) e A alegoria na canção de Chico Buarque (apresentado na UEM).
Mas nem todas as paixões se explicam de modo fácil. Assim foi com Albert Camus, cuja obra O estrangeiro eu li com 16 anos, creio. Não sei como a descobri nas prateleiras da biblioteca do clube onde era sócio-atleta (praticava atletismo e jogava xadrez pela SOGIPA) e nem porque a retirei para ler. Mas foi "impactante". Depois de sua leitura eu sabia que não mais seria o mesmo. E assim foi.
Hoje, como já disse, não tenho tanto prazer e tantas descobertas “essenciais” no trato com a literatura. Talvez devido à preocupação com tantas teorias a estudar; talvez devido à “análise, que estraga a primavera com a anatomia das flores”, conforme já escreveu Raul Pompéia, comprimido por seu temperamento romântico, de um lado, e a necessidade da técnica que o mundo científico e sério da época exigia, por outro. Mas talvez os anos adquiridos não sejam tão pesados e a velhice tão inócua e cruel, minha cara D. Camila. E se os românticos estiverem certos (de que ela é uma segunda infância), eu poderei retornar a tantas leituras não feitas e não “sérias” sem o compromisso com a qualidade total e sem a preocupação com as línguas alheias, em especial a dos puristas, zelosos zeladores da língua.


Marciano Lopes

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Projeto Autores & Ideias: bate-papo com André Czarnobai


PROJETO AUTORES & IDEIAS

O Sesc Paraná promove o Projeto Autores & Ideias, evento que discutirá os mais variados temas da literatura, tendo como ponto de partida suas relações com o ciberespaço. Ao longo de 2010, o Autores & Ideias percorrerá cinco cidades paranaenses com atividades que pretendem ampliar o debate em torno da literatura, leitura e letramento na sociedade digital. De maio a novembro, a cibercultura será a temática principal de mesas-redondas, workshops e oficinas, oferecidas nas unidades do Sesc em Curitiba, Londrina, Maringá, Pato Branco e Cascavel. Uma oportunidade única de trazer para o mundo real um bate-papo essencialmente virtual.

Neste ciclo de Autores & Ideias, que acontece em junho de 2010, serão abordados alguns veículos de comunicação com foco em literatura e artes em geral surgidos exclusivamente na internet, sua viabilidade em comparação com os meios impressos e algumas vantagens da publicação virtual, como maior interatividade com o leitor, baixo custo de implementação, versatilidade de formatos e a garantia de factualidade.


MESA REDONDA

Tema: Arte e informação na Rede
Autor Convidado
André Czarnobai – Rio Grande do Sul (escritor e fundador do Cardoso Online, o mais famoso fanzine digital distribuído no Brasil)

Mediador - Marcelo Bulgarelli - Jornalista

DATA - 24/06/2010
HORÁRIO- 20:00
LOCAL - SESC
Público: estudantes de jornalismo, letras, artes, artistas, jornalistas, escritores.


Quem é CARDOSO?


Ficcionista e não-ficcionista, gongorista, jornalista, roteirista, consultor criativo, webshaman extraordinaire, webdesigner autodidata, desenhista, preparador de original, tradutor, intérprete, produtor musical, DJ, MC, demonstrador e vendedor de aparelhos de monitorização vital, pior fotógrafo do mundo, bon-vivant e modelo, André Felipe Pontes Czarnobai nasceu no dia 27 de maio de 1979 em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil.

Autor de Cavernas & Concubinas (2005, coleção Risco:Ruído, DBA Editora).
Participou das coletâneas Oficina 32 (2004, Org. Luis Antonio de Assis Brasil), Troco (2005, Type), Dentro de um Livro, (2005, Casa da Palavra), Contos de bolso (2005, Casa Verde), Contos do Novo Milênio - Os melhores contistas gaúchos dos últimos 25 anos (Org. Charles Kiefer, Instituto Estadual do Livro, 2006), Ficção de Polpa 3 (Não Editora, 2009) e Desacordo Ortográfico (Não Editora, 2009).

Publicou contos na Revista Ficções (2003, 7Letras), no site da Revista Trip; no especial Feira do Livro do ClicRBS; nos jornais Zero Hora e Brasil Econômico; e nas revistas Aplauso, F, Bravo! e Gloss.

Participou da segunda edição do projeto Na Tábua, de Paulo Scott e Fábio Zimbres, ao lado de Marçal Aquino.


A PROGRAMAÇÃO É GRATUÍTA, VAGAS LIMITADAS.
PARA SE INSCREVER ENCAMINHE E-MAIL COM NOME E TELEFONE E OU DIRETAMENTE NO SESC.
O SESC FORNECERÁ CERTIFICADO DE PARTICIPAÇÃO.
maringa@sescpr.com.br
laidesousa@sescpr.com.br

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Adeus, Dennis Hopper! - por "Anjo Polenta"

Um filme pode mudar a vida de alguém?


From: "Anjo Polenta"
Sent: Sunday, May 30, 2010 1:05:24 PM


Hoje morreu Dennis Hopper, ator e diretor de Easy Rider. Tenho a conta exata de quantas vezes assisti a esse road movie - 26 vezes (e contando). Apenas por Easy Rider e Apocalypse Now, Hopper merece estar no Panteão dos grandes atores de todos os tempos, embora sua filmografia incluísse muitas outras obras (Juventude Transviada, por exemplo).

A primeira vez que Easy Rider assaltou minhas retinas, tinha 17 anos, embalado pelo rock´n´roll e por um período intenso de leituras sobre os beatniks e a contracultura dos anos 60, Jack Kerouak, Gary Snider, William Burroughs, Allen Ginsgberg, Robert Crumb, Freak Brothers, Charles Bukowski, e, claro, todas essas publicações me indicando uma belíssima filmografia, tudo interligado, como naqueles raciocíonios perfeitamente circulares que às vezes percorrem as mentes quando se fuma maconha.

E nesses círculos perfeitos cheguei à Easy Rider. Digo que SIM, esse filme mudou a minha vida. Inspirado na liberdade que "Wyatt" e "Billy" buscam numa viagem sem fim pelo sul dos Estados Unidos (naquelas motocicletas maravilhosas...) eu então percorri milhares de quilômetros em centenas de viagens Brasil afora, sempre de carona, sempre com pouco dinheiro ou nenhum, sempre com uma guria linda e tão ou mais aventureira que eu (por onde andarão...?) dormindo em postos de gasolina, em praias deslumbrantes, ao lado de cachoeiras ou onde calhasse.

Meus cabelos enormes, minhas roupas coloridas, a estrada e dias de aventuras - o prazer de conseguir uma carona, os quilômetros que se sucediam, paisagens mutantes, e aquela sensação de eternidade que me invadia...

Para mim Easy Rider é uma metáfora da contracultura: a viagem dos personagem é estupidamente interrompida, simbolizando que a liberdade que se perseguia era impossível de se obter. Pelo menos, não para sempre.

Obrigado, Dennis Hopper, pela obra prima que é Easy Rider: fotografia, roteiro, e uma trilha sonora que parece ter sido especialmente composta para o filme, embora fosse meramente uma colagem de músicas que se encaixa nas cenas com perfeição raríssima.

Obrigado, Dennis Hopper, por ter inspirado algumas das melhores viagens da minha vida.

Convido a vocês, meus bons amigos desse vasto mundo, a assistirem a uma das mais belas cenas de Easy Rider, ao som de "Wasn´t Born to Follow", do The Byrds:

http://www.youtube.com/watch?v=gWhgLjim6Rc

Oh I'd rather go and journey where the diamond crest is flowing and
Run across the valley beneath the sacred mountain and
Wander through the forest
Where the trees have leaves of prisms and break the light in colors
That no one knows the names of

And when it's time I'll go and wait beside a legendary fountain
Till I see your form reflected in it's clear and jewelled waters
And if you think I'm ready
You may lead me to the chasm where the rivers of our vision
Flow into one another

I will want to die beneath the white cascading waters
She may beg, she may plead, she may argue with her logic
And then she'll know the things I learned
That really have no value in the end she will surely know
I wasn't born to follow

VALEU DENNIS HOPPER... QUE A TERRA LHE SEJA LEVE.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Poema na madrugada: "Ser/vida"

SER/VIDA

vida sobre/mesa
sobre/mesa vida
vida ser/vida

vida sobre/mesa
explícita

cadáver vivo?

natureza morta?

vida sobre/mesa
mesa sob(r)a vida
sobre/mesa vida

ser/vida
a/guarda
?

quem descubra
quem decifre
quem devore
?

faca
ques
pedaça
?

vida sobre/mesa
es/finge faminta

devora
ar/dente
mente
?

sente(?)

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Poema na madrugada: Simulacros

SIMULACROS

Marciano Lopes



Quem duvida da vida tem culpa.
Quem evita a dúvida também tem.
(Humberto Gessinger, Somos quem podemos ser)




Onde o outro
que eu fui?

Onde o eu
que é o outro?

De quem o olhar
no vazio do vidro?

De quem as palavras
que saltam ferozes?

De um fingidor?

De um clone?

De um xerox
do simulacro?

De quem esta voz
este verbo, este vazio?

De quem esta veia
que se esvai?

Onde o outro
que sou?

Onde o outro
que sei?

Onde o outro
que nada sabe?

Onde o outro
que jaz morto?

Onde o outro
que era eu?

Onde o eu
que será outro?

Onde?

(Eu que pude ser
sonhos
que tentei ter...)