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sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Câmara analisa projeto de lei que pune violência contra o professor


A Câmara dos Deputados analisa o Projeto de Lei 267/11, da deputada Cida Borghetti (PP-PR), que estabelece punições para estudantes que desrespeitarem professores ou violarem regras éticas e de comportamento de instituições de ensino.

Em caso de descumprimento, o estudante infrator ficará sujeito a suspensão e, na hipótese de reincidência grave, encaminhamento à autoridade judiciária competente.

A proposta muda o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/90) para incluir o respeito aos códigos de ética e de conduta como responsabilidade e dever da criança e do adolescente na condição de estudante.


Indisciplina


De acordo com a autora, a indisciplina em sala de aula tornou-se algo rotineiro nas escolas brasileiras e o número de casos de violência contra professores aumenta assustadoramente. Ela diz que, além dos episódios de violência física contra os educadores, há casos de agressões verbais, que, em muitos casos, acabam sem punição.


O projeto, que tramita em caráter conclusivo, será analisado pelas comissões de Seguridade Social e Família; de Educação e Cultura; e de Constituição e Justiça e de Cidadania.


Quando eu era estudante do ensino médio, os meus professores me serviam de referência, era possível ser amiga deles. Ao mesmo tempo em que podíamos brincar com eles, havia um respeito enorme por aqueles que nos ensinavam um pouco mais dia a dia. É muito triste perceber que o desrespeito e a violência ao professor imperam no dia de hoje.


por Amannda Oliveira - Retirirado de seu blog Falando francamente.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Tributo ao professor Kássio Vinícius Castro Gomes

Prof. Kássio Vinícius Castro Gomes
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Caro Igor, faço minhas suas palavras, sem tirar nem por. (Marciano Lopes)
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J’ACUSE !!!
(Eu acuso !)

« Mon devoir est de parler, je ne veux pas être complice.
(Émile Zola)

Meu dever é falar, não quero ser cúmplice. (...)
(Émile Zola)

Foi uma tragédia fartamente anunciada. Em milhares de casos, desrespeito. Em outros tantos, escárnio. Em Belo Horizonte, um estudante processa a escola e o professor que lhe deu notas baixas, alegando que teve danos morais ao ter que virar noites estudando para a prova subsequente. (Notem bem: o alegado “dano moral” do estudante foi ter que... estudar!). A coisa não fica apenas por aí. Pelo Brasil afora, ameaças constantes. Ainda neste ano, uma professora brutalmente espancada por um aluno. O ápice desta escalada macabra não poderia ser outro. O professor Kássio Vinícius Castro Gomes pagou com sua vida, com seu futuro, com o futuro de sua esposa e filhas, com as lágrimas eternas de sua mãe, pela irresponsabilidade que há muito vem tomando conta dos ambientes escolares.


Há uma lógica perversa por trás dessa asquerosa escalada. A promoção do desrespeito aos valores, ao bom senso, às regras de bem viver e à autoridade foi elevada a método de ensino e imperativo de convivência supostamente democrática. No início, foi o maio de 68, em Paris: gritava-se nas ruas que “era proibido proibir”. Depois, a geração do “não bate, que traumatiza”. A coisa continuou: “Não reprove, que atrapalha”. Não dê provas difíceis, pois “temos que respeitar o perfil dos nossos alunos”. Aliás, “prova não prova nada”. Deixe o aluno “construir seu conhecimento.” Não vamos avaliar o aluno. Pensando bem, “é o aluno que vai avaliar o professor”. Afinal de contas, ele está pagando... E como a estupidez humana não tem limite, a avacalhação geral epidêmica, travestida de “novo paradigma” (Irc!), prosseguiu a todo vapor, em vários setores: “o bandido é vítima da sociedade”, “temos que mudar ‘tudo isso que está aí’, “mais importante que ter conhecimento é ser ‘crítico’.”

Claro que a intelectualidade rasa de pedagogos de panfleto e burocratas carreiristas ganhou um imenso impulso com a mercantilização desabrida do ensino: agora, o discurso anti-disciplina é anabolizado pela lógica doentia e desonesta da paparicação ao aluno – cliente... Estamos criando gerações em que uma parcela considerável de nossos cidadãos é composta de adultos mimados, despreparados para os problemas, decepções e desafios da vida, incapazes de lidar com conflitos e, pior, dotados de uma delirante certeza de que “o mundo lhes deve algo”. Um desses jovens, revoltado com suas notas baixas, cravou uma faca com dezoito centímetros de lâmina, bem no coração de um professor. Tirou-lhe tudo o que tinha e tudo o que poderia vir a ter, sentir, amar. Ao assassino, corretamente , deverão ser concedidos todos os direitos que a lei prevê: o direito ao tratamento humano, o direito à ampla defesa, o direito de não ser condenado em pena maior do que a prevista em lei. Tudo isso, e muito mais, fará parte do devido processo legal, que se iniciará com a denúncia, a ser apresentada pelo Ministério Público. A acusação penal ao autor do homicídio covarde virá do promotor de justiça. Mas, com a licença devida ao célebre texto de Emile Zola, EU ACUSO tantos outros que estão por trás do cabo da faca:

EU ACUSO a pedagogia ideologizada, que pretende relativizar tudo e todos, equiparando certo ao errado e vice-versa;

EU ACUSO os pseudo-intelectuais de panfleto, que romantizam a “revolta dos oprimidos”e justificam a violência por parte daqueles que se sentem vítimas;

EU ACUSO os burocratas da educação e suas cartilhas do politicamente correto, que impedem a escola de constar faltas graves no histórico escolar, mesmo de alunos criminosos, deixando-os livres para tumultuar e cometer crimes em outras escolas;

EU ACUSO a hipocrisia de exigir professores com mestrado e doutorado, muitos dos quais, no dia a dia, serão pressionados a dar provas bem tranquilas, provas de mentirinha, para “adequar a avaliação ao perfil dos alunos”;

EU ACUSO os últimos tantos Ministros da Educação, que em nome de estatísticas hipócritas e interesses privados, permitiram a proliferação de cursos superiores completamente sem condições, frequentados por alunos igualmente sem condições de ali estar;

EU ACUSO a mercantilização cretina do ensino, a venda de diplomas e títulos sem o mínimo de interesse e de responsabilidade com o conteúdo e formação dos alunos, bem como de suas futuras missões na sociedade;

EU ACUSO a lógica doentia e hipócrita do aluno-cliente, cada vez menos exigido e cada vez mais paparicado e enganado, o qual, finge que não sabe que, para a escola que lhe paparica, seu boleto hoje vale muito mais do que seu sucesso e sua felicidade amanhã;

EU ACUSO a hipocrisia das escolas que jamais reprovam seus alunos, as quais formam analfabetos funcionais só para maquiar estatísticas do IDH e dizer ao mundo que o número de alunos com segundo grau completo cresceu “tantos por cento”;

EU ACUSO os que aplaudem tais escolas e ainda trabalham pela massificação do ensino superior, sem entender que o aluno que ali chega deve ter o mínimo de preparo civilizacional, intelectual e moral, pois estamos chegando ao tempo no qual o aluno “terá direito” de se tornar médico ou advogado [ou professor]* sem sequer saber escrever, tudo para o desespero de seus futuros clientes-cobaia;

EU ACUSO os que agora falam em promover um “novo paradigma”, uma “ nova cultura de paz”, pois o que se deve promover é a boa e VELHA cultura da “vergonha na cara”, do respeito às normas, à autoridade e do respeito ao ambiente universitário como um ambiente de busca do conhecimento;

EU ACUSO os “cabeça – boa” que acham e ensinam que disciplina é “careta”, que respeito às normas é coisa de velho decrépito;

EU ACUSO os métodos de avaliação de professores, que se tornaram templos de vendilhões, nos quais votos são comprados e vendidos em troca de piadinhas, sorrisos e notas fáceis;

EU ACUSO os alunos que protestam contra a impunidade dos políticos, mas se gabam de colar nas provas, assim como ACUSO os professores que, vendo tais alunos colarem, não têm coragem de aplicar a devida punição.

EU VEEMENTEMENTE ACUSO os diretores e coordenadores que impedem os professores de punir os alunos que colam, ou pretendem que os professores sejam “promoters” de seus cursos;

EU ACUSO os diretores e coordenadores que toleram condutas desrespeitosas de alunos contra professores e funcionários, pois sua omissão quanto aos pequenos incidentes é diretamente responsável pela ocorrência dos incidentes maiores. Uma multidão de filhos tiranos que se tornam alunos-clientes, serão despejados na vida como adultos eternamente infantilizados e totalmente despreparados, tanto tecnicamente para o exercício da profissão, quanto pessoalmente para os conflitos, desafios e decepções do dia a dia.

Ensimesmados em seus delírios de perseguição ou de grandeza, estes jovens mostram cada vez menos preparo na delicada e essencial arte que é lidar com aquele ser complexo e imprevisível que podemos chamar de “o outro”.

A infantilização eterna cria a seguinte e horrenda lógica, hoje na cabeça de muitas crianças em corpo de adulto: “Se eu tiro nota baixa, a culpa é do professor. Se não tenho dinheiro, a culpa é do patrão. Se me drogo, a culpa é dos meus pais. Se furto, roubo, mato, a culpa é do sistema. Eu, sou apenas uma vítima. Uma eterna vítima. O opressor é você, que trabalha, paga suas contas em dia e vive sua vida. Minhas coisas não saíram como eu queria. Estou com muita raiva. Quando eu era criança, eu batia os pés no chão. Mas agora, fisicamente, eu cresci. Portanto, você pode ser o próximo.”

Qualquer um de nós pode ser o próximo, por qualquer motivo. Em qualquer lugar, dentro ou fora das escolas. A facada ignóbil no professor Kássio dói no peito de todos nós. Que a sua morte não seja em vão. É hora de repensarmos a educação brasileira e abrirmos mão dos modismos e invencionices. A melhor “nova cultura de paz” que podemos adotar nas escolas e universidades é fazermos as pazes com os bons e velhos conceitos de seriedade, responsabilidade, disciplina e estudo de verdade.

Igor Pantuzza Wildmann
Advogado – Doutor em Direito. Professor universitário.
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* Já tive vários alunos nos meus 15 anos de magistério superior que se formaram professores de português sem saber escrever de uma forma minimamente aceitável para a função, produzindo textos desarticulados, repletos de erros (perdão, "desvios"...) de gramática (pontuação, concordância, sintaxe etc.) e - pior - com pouquíssima coesão e coerência. Encontrar "mais" em vez de "mas", "é" sem acento e outras coisas do gênero é comum... Muitas vezes estes alunos até possuem conteúdo e são críticos, mas será que isto basta, especialmente considerando que sairam habilitados para ensinar língua e literatura? Assumo aqui minha "mea-culpa", mas como reprovar tais alunos que já chegaram ao quarto ou quinto ano do curso (especialmente se forem formandos) devido à redação se eles já passaram por inúmeros professores de língua portuguesa que os aprovaram? E mais: se uma vez reprovados estes alunos terão o direito a cursar novamente a disciplina sem ao menos assistir as aulas? Se já não aprenderam estando em classe, vão aprender fora dela, somente agindo como autodidatas? Para mim, a dependência nada mais é do que o "fluxo", criado no ensino fundamental e médio (não se reprova, empurra-se o aluno e o problema para frente, com a barriga, ao mesmo tempo que se garante belos índices de aprovação escolar...), transferido para o ambiente universitário...
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Marciano Lopes

domingo, 5 de dezembro de 2010

Protesto dos Professores do Estado do Paraná - dia 6 de dezembro

Acima, vídeo que recebi do amigo Marcos "Maranhão" via orkut. Apresenta as faixas que fez à pedido da APP para protesto - dia 6 de dezembro - por uma educação melhor e, mais especificamente, pela decisão do atual governo do Estado do Paraná em não nomear os professores concursados, deixando centenas de alunos sem professores e sem aulas ou com professores improvisados a cobrir a ausência dos colegas não nomeados.

Veja mais sobre educação no blog de Marco "Maranhão": http://janolanterneiro.blogspot.com/

terça-feira, 8 de junho de 2010

Memórias de um São Leitor

O texto que segue foi escrito para a disciplina de "Ensino de Literatura", ministrada pelo prof. Dr. Benedito Antunes, da pós-graduação em Letras da Unesp (campus de Assis) em 2002. Foi-nos solicitado que escrevêssemos uma crônica discorrendo sobre nossos pimeiros passos no mundo da leitura, recuperando, na memória, as leituras significativas e a nossa trajetória inicial como leitores. Feito isso, os textos foram recolhidos pelo professor que os organizou em forma de livro, o qual foi disponibilizado para que nós fizéssemos a cópia e a leitura dos textos de todos os colegas. Com base nessas experiências, posteriormente discutimos o processo de formação de leitores, considerando os vários aspectos envolvidos, tais como as motivações para o desenvolvimento do gosto pela leitura, a seleção e a qualidade das obras em conformidade com a faixa etária, a importância da leitura na formação do caráter e da cidadania, entre outras questões. Foi uma experiência enriquecedora, especialmente por recuperar e compartilhar a memória de estórias individuais, possibilitando-nos uma reflexão crítica e humana sobre nossas formações como leitores profissionais.
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MEMÓRIAS DE UM SÃO LEITOR
(ou “Uma tentativa de recompor velhas teias espanadas.”)

Penso, às vezes, na minha querida D. Camila quando lembro da sua beleza e das patuscadas que os seus amigos lhe faziam. Nesses momentos, reflito que há muitas coisas desagradáveis na vida, entre as quais estão aquelas que nos despertam para os anos vividos e para velhice que se aproxima inexorável.
Talvez ela tenha razão e se eu lhe retrucasse que os anos vividos trazem experiência, sabedoria e maturidade, provavelmente me devolveria um olhar entre irônico e zombeteiro e me diria que nada substitui a vitalidade da juventude e o tempo que nunca se fez verbo. Pois é, D. Camila, rugas, netos e cabelos brancos são terríveis inimigos da mulher, embora para nós, seres masculinos, isso seja de menos. Afinal, sempre há moças e senhoras que muito apreciam o charme de um cabelo grisalho e a confortante dureza de um olhar calejado. Mas há outros incidentes que abalam a serenidade, seja de um homem ou de uma mulher, pelo que tem de imprevisto ou de freqüente.
Há tempos atrás, olhava com interesse e admiração uma moça sentada a minha frente num ônibus. Era loura, magra e alta – tipo Top Model. Quando fui descer, não me furtei à curiosidade de lhe ver o rosto e lancei um olhar 43. Que baque! Não sabia onde enfiá-la! (a minha cara! maliciosa leitora...). Não que meu olhar estivesse por demais ultrapassado, mas a bela moça ninguém mais era do que a prima de um amigo, linda menina que tantas vezes segurei em meus braços e sentei sobre as minhas pernas quando criança... Noutro dia, para meu desgosto, me chamaram de tio três vezes! Num dia só é demais, no final das contas eu não sou professor de primeiro grau – ôpa! ensino fundamental...
Outro indício dos tempos acontece quando certas discussões, que aos jovens e utopistas empolgam, nos enfadam e nos atormentam com seu cheiro de bolor (e se você o sente, então o caso é sério!). “É a arte revolucionária?” “A cultura de massa vai acabar com ela e com todos nós?” “E a televisão e o vídeo? Vão acabar com o cinema e a literatura?” ”Adultos devem ler best-sellers e histórias em quadrinhos?” “Deve-se tolerar a degeneração de uma obra-prima, transformada em linguagem de HQ?” Pra piorar, não fiz promessa pra São Luiz Durão, mas me encomendaram um memorial da minha vida de leitor. Eu e a Literatura. A Literatura e Eu. ?????????????? Memórias... memórias... além da minha ser fraca, me faz pensar em velhice, fim da vida, fechado pra balanço, livro póstumo... Ai!...
Pus-me a pensar, mas como sou alérgico à poeira não foi fácil espanejar o pó e o mofo do meu sótão. Muito menos ligar as pontas dos fios de velhas teias literárias... Só depois de muitos espirros e lágrimas pude sentar-me perante o espelho e concluir, com segurança e imparcialidade, que sempre fui um leitor sadio e normal.
Quando bem criança, lembro, ainda que parcamente, eu lia as histórias de contos de fadas, de valentes cavaleiros muito cavalheiros e de seres maravilhosos em edições fantásticas, de capas duras e ricamente ilustradas e coloridas! O Gato de Botas, Cinderela, Branca de Neve, O Pequeno Polegar, O Soldadinho de Chumbo, Ivanhoé, Ali Babá e os 40 ladrões etc... Lia também as histórias de Walt Disney e da Turma da Mônica, que era a minha favorita (a primeira coelhinha sem pensar em sexo!). Depois vieram os heróis do mundo moderno: o Fantasma e o Homem-Aranha eram os meus preferidos, mas não posso lembrar, sem saudade, do seriado Batman e Robin que passava à tarde na TV, pois misturava com humor as linguagens do cinema e das histórias em quadrinhos. Lembro principalmente quando os dois escalavam as paredes dos edifícios (numa montagem comicamente explícita) e a Bat-Girl saía da parede do beco pilotando sua lambretinha... Do Fantasma, gostava por ser exótico; do Homem-Aranha, por ser marginal e paradoxalmente desprezado por sua timidez, ousadia e irreverência. Lia também os livros de bolso, aqueles com histórias de cowboys, gangsters, policiais e terror. Lembro de duas séries: Tex e Gisele, a espiã (que “alemoa“!, pensava). Depois veio uma literatura mais culta e classe média: sucessos de Sidney Sheldon, Harold Robbins, Irwing Wallace e Morris West. Ah! Como esquecer de Sherlock Holmes e principalmente de Agatha Christie (Allan Poe veio depois, que é leitura mais séria). Como não lembrar d’O caso dos dez negrinhos e da elegante argúcia do detetive Hercule Poirot?
Como ia dizendo, aos poucos cheguei na literatura “séria”. Com quinze anos, creio, descobri, na casa de uma prima, a Revista do Círculo do Livro (garanto que maliciastes de novo...). Adorei – a revista – e por livre e espontânea vontade “sugeri” a minha mãe (que desde criança “alegrava” com insistentes pedidos para comprar revistas em quadrinhos) um apoio financeiro para que também me tornasse sócio do Círculo. Nessa mesma ocasião, fiz o primeiro pedido: Vinte mil léguas submarinas. Depois, por três anos a cada trimestre, eu tinha a alegria de receber a revista e a aflição de ter que escolher um livro entre tantos e tantas seções: o recomendado do trimestre, best-sellers, ficção científica, literatura brasileira, juvenis, humor, divulgação científica e outras seções que não me lembro. Além da alegria de ganhar algum prêmio, quando conseguia um sócio novo ou juntava tantos selos por compra de livros, muito me instruí. Sem dúvida, foi através da leitura das inúmeras resenhas e dos poucos artigos de crítica ou entrevistas que tomei conhecimento da variedade de gêneros existentes no universo literário, assim como do conteúdo e da importância de inúmeras obras, mesmo sem lê-las. E em nenhum momento a televisão e a cultura de massa me afastaram deste caminho de letras, muito pelo contrário. Os filmes que via na TV me despertavam a imaginação e me ilustravam de história, literatura e mitologia, entre outras coisas. Na época era comum narrativas de aventuras de heróis mitológicos – como Sansão e Hércules – e de romances românticos como O conde de Monte Cristo, Os três mosqueteiros e A ilha do tesouro – que aliás viraram seriados de TV como desenhos animados.
Atualmente, a relação com a TV e o cinema ainda se mantém, embora com uma qualidade diversa. Graças ao filme A ostra e o vento, de Walter Lima Junior
, fui sacado da minha “santa ignorância Batman!” e fiquei sabendo da existência do romance homônimo do escritor Moacir Lopes, o qual não era nenhuma novidade literária, visto que a obra foi editada pela primeira vez em 1964 (um ano antes de eu nascer). Ao lê-lo, descobri ser tão lindo quanto o filme, o que mais ainda me gratificou (pois normalmente considero os livros melhores que as suas traduções para o cinema ou TV). E, graças a esta descoberta, novamente soube quão delicioso pode ser mergulhar na literatura de ficção, posto que os anos de estudo e a prática de professor de literatura em muito contribuíram para o desgaste deste prazer.
Com a música não foi muito diferente. Através de Vinícius de Moraes, Chico Buarque, Caetano e Gil, entre outros, cheguei à poesia. O incentivo da escola em que estudei a partir da 6a série até o fim do 2o grau (digo, ensino médio) contribuiu com dois concursos literários, mas a semente não estava nela. Onde? Não sei. São teias irrecuperáveis. No primeiro, em que alcancei o primeiro lugar, não tive mérito, mas o tema também era muito “quadrado”: cantar o colégio. Iniciei o poema, mas como não conseguisse levar adiante tantas eloqüentes e ufanosas redondilhas, uma amiga da minha irmã valeu-se da sua experiência poética e do seu amor pelo gauchismo para compor - impecavelmente - os versos e estrofes restantes (que foram muitos!). No segundo foi diferente. O segundo lugar foi mais saboroso, pois compus o poema sozinho (a temática era livre). Não ficou nenhuma obra-prima, é claro, mas foi um sincero e romântico poema em versos livres cujo tema era o protesto à opressão e à miséria. Valeu-me de prêmio vários livros, mas o que mais me tocou entre eles foi a antologia de Manuel Bandeira, meu querido poeta que desde então trago comigo. Assim como o velho Chico, que tantas vezes carreguei para a Lancheria, Bar e Café Universitário do Nelson (onde, pra contrariar, só dava velho aposentado e alguns dinossauros do curso de Oceanologia, que eu então empurrava com a barriga, cursando-o paralelamente ao de Letras). Lá, pedia uma cerveja ou uma cachacinha com mel, uma porção de calabresa ou lingüiça, pegava a caneta e punha-me a destrinchar os versos das canções de Chico Buarque, realizando deliciosas análises (e talvez dissesse melhor se falasse “viagens”...) que me renderam “lucros” posteriores e inesperados: um trabalho para a disciplina de Teoria Literária na graduação em Letras (que depois foi reescrito para uma disciplina do mestrado, ganhando “A” e “parabéns” da professora Dra. Maria da Glória Bordini!) e dois minicursos: A poética de Chico Buarque (apresentado na UEL) e A alegoria na canção de Chico Buarque (apresentado na UEM).
Mas nem todas as paixões se explicam de modo fácil. Assim foi com Albert Camus, cuja obra O estrangeiro eu li com 16 anos, creio. Não sei como a descobri nas prateleiras da biblioteca do clube onde era sócio-atleta (praticava atletismo e jogava xadrez pela SOGIPA) e nem porque a retirei para ler. Mas foi "impactante". Depois de sua leitura eu sabia que não mais seria o mesmo. E assim foi.
Hoje, como já disse, não tenho tanto prazer e tantas descobertas “essenciais” no trato com a literatura. Talvez devido à preocupação com tantas teorias a estudar; talvez devido à “análise, que estraga a primavera com a anatomia das flores”, conforme já escreveu Raul Pompéia, comprimido por seu temperamento romântico, de um lado, e a necessidade da técnica que o mundo científico e sério da época exigia, por outro. Mas talvez os anos adquiridos não sejam tão pesados e a velhice tão inócua e cruel, minha cara D. Camila. E se os românticos estiverem certos (de que ela é uma segunda infância), eu poderei retornar a tantas leituras não feitas e não “sérias” sem o compromisso com a qualidade total e sem a preocupação com as línguas alheias, em especial a dos puristas, zelosos zeladores da língua.


Marciano Lopes